domingo, 14 de dezembro de 2008

Bip Bip 40 anos


Roda de samba num domingo tradicional do Bip

Ontem, fiquei muito emocionado ao participar do lançamento do livro em homenagem aos 40 anos do Bip Bip. Essa coisa dos assíduos freqüentadores se organizarem para, de algum modo, tentar preservar a bagunça cotidiana de seu bar — como fez a turma do Bar do seu Jóia, que deu um abraço simbólico ao bar, que enfrenta dificuldades após a morte do patriarca — ou simplesmente para celebrar a alegria é muito bacana. E qualquer homenagem ao Bip, por tudo o que esse bar é, e ao Alfredinho, pelo ser humano da mais alta estirpe, é pouca. Mas, hoje, ao folhear o livro e mergulhar em alguns de seus textos, voltei a me emocionar e acho bom que o Alfredinho se abstenha de ler o livro, para segurar o coração.

O texto de Marceu Vieira, por exemplo, para quem o Neném, um dos apelidos do Alfredinho, é um pai, saiu como uma declaração de amor esculpida na alma. Imagino a dificuldade que ele teve para escrever aquelas linhas, tamanha é a proximidade sua com o dono e alma do Bip. O texto do Paulo Roberto Pires, que ficou ao lado do meu, é tão curto quanto impactante e, de certo modo, evoca a melancolia e a saudade, sentimentos aos quais também recorri, ao finalizar trazendo a letra, se não me engano de Gil e Caetano, que diz que “o samba é a tristeza que balança, com a esperança de um dia não ser mais triste não”. Já Edu Goldenberg conseguiu, na sua prosa habilidosa, enfiar sua querida Tijuca em Copacabana para homenagear o Bip. Conhecendo o ardor com que meu amigo defende seu rincão cultural, sei o quanto isso significa como homenagem e reconhecimento.


O Alfredinho é uma espécie de Dionísio, abençando a bagunça

Um evento como o de ontem não poderia deixar de atrair uma multidão. E o Alfredinho se organizou, conseguindo a instalação de uma boa dúzia de banheiros químicos. É esse o tipo de sujeito que o Alfredo é. Alguém que se preocupa com o que acontece em torno do Bip. Qualquer outro não teria se incomodado com detalhes assim. E é essa vocação, digamos, social que faz do Alfredinho um sujeito singular.

Cheguei tarde, pois estava preso no plantão do jornal e, quando finalmente pus os pés na Almirante Gonçalves, já estavam todos calibrados. Mas conseguir dar um beijo no Alfredinho e na Regina. Procurei em vão por Naninha na multidão e fui-me embora, com Kadu, do Bracarense, e o Cesinha Tartaglia para uma saideira no Real Chope, onde encontrei Ney Sant’Anna e outros amigos, e que se estendeu ao Galeto Sats, onde encontrei outro Alfredo, o Boneff, órfão temporário do Cervantes, que só reabre dia 16, próxima terça, após quatro meses de obra.

Obrigado ao Luís Pimentel, Marcelo Moutinho e Francisco Genu pela organização do livro, uma homenagem mais que merecida e que ficará para história. Abaixo, reproduzo minha singela contribuição, que saiu na página 197.

O Bip é uma saudade

Paulo Thiago de Mello

Bem mais que um bar, o Bip é um lugar, no sentido amplo e afetivo do termo. O que ocorre em suas dependências e no entorno não se descreve enumerando as qualidades físicas e abstratas, como se faz quando se fala de um botequim digno de nota: ambiência, decoração, arquitetura, boêmia, história... Tudo isso é importante no Bip, mas não é suficiente para traduzir o que é esse lugar. Nem mesmo basta ostentar aquilo que o distingue dos demais, como a sua administração gerida pelos fregueses no calor da hora, o socialismo e a anarquia vivenciados empiricamente no botequim. O Bip está além dos mais badalados, dos mais tradicionais, dos mais charmosos. É o verdadeiro caso a parte. Aquele que não se enquadra nas descrições convencionais, sempre incompletas quando tentam explicá-lo.

Para se falar desse lugar com um mínimo de sinceridade não se pode descrevê-lo, nivelando suas qualidades numa lista de prodígios. Não. Para se falar do Bip, é preciso narrá-lo, e isso significa ir além das enumerações: ultrapassar a descrição; atravessar suas paredes, que testemunham a história do samba e do Botafogo do nosso Alfredinho; avançar para depois das notas musicais de suas rodas de choro e samba. Para narrar o Bip é preciso, no mínimo, trazer à luz os dramas de todos aqueles que o fazem, a começar pelo Alfredinho, coração e alma da casa.

O Bip transcende a si próprio no espaço justamente por causa de sua qualidade humana, demasiadamente humana. Por isso, encontro-o, por exemplo, no Lamas ou no Galeto, quando esbarro com Alfredinho na madrugada carioca. Ou quando, numa roda de samba qualquer, sua figura aflora, como uma espécie de deus da alegria, abençoando a bagunça, dionisíaco. Ou nas conversas com meu amigo Marceu Vieira. Ou na francesa que me fala, num café em pleno inverno parisiense, de sua saudade do Rio que o Bip contém. Ou na arguta observação do jovem japonês que vem do Oriente aprender o segredo disso que está além de palavras.

O Bip é o afeto, a alegria, a melancolia, a vida, enfim. É essa coisa essencial que encontrei, por exemplo, quando os meus olhos esbarraram, pela primeiríssima vez, com os de Naninha, em seu vestido florido, atrás do balcão, severa, guardando a casa. O Bip é uma saudade, palavra que significa muito mais que nostalgia ou evocação, e que traz em seu âmago a essência mesma da vida, das coisas fugidias que passam por nós e nos fazem humanos. Termo que só existe em português (por falta de um equivalente em alemão, por exemplo, Freud se viu obrigado a inventar a psicanálise para tentar dar conta dos mesmos fenômenos furiosos que lírica lusitana resume em saudade). O Bip é muitas coisas, mas, sobretudo, o lugar dessa ebulição apaixonada que o lirismo de nossa língua traduz numa só palavra.


O Bip é um dos poucos lugares que conheço onde os músicos tocam de graça, pelo prazer de tocar

sábado, 6 de dezembro de 2008

Saudades do seu Jóia


Os portais majestosos do botequim

Ontem estive no Bar do Seu Jóia, depois de muito, muito tempo. A turma de freqüentadores está fazendo um movimento para tentar salvar um dos botecos mais charmosos do Rio, que em janeiro de 2009 completará um século de existência. Depois da morte do lendário Jóia, a viúva, dona Alaíde, vem lutando com dificuldades para manter esse símbolo de carioquice. Ontem, a turma que forma a confraria do Jóia lançou uma campanha para salvar o bar, com um abraço simbólico à casa. O evento foi comemorado com uma feijoada da mais alta estirpe. Como não poderia deixar de ser, lembramos muitas histórias de seu Jóia, dono de um humor "bipolar", como disse um dos amigos-fregueses. Abaixo algumas imagnes do boteco.


Os cartazes dos tempos do seu Jóia


Em pé, Marcelo, um dos idealizadores do movimento, e meu amigo Custódio Coimbra


Custódio, Zé Octávio e Flavio Silveira, o trio do Rio Botequim, e, no fundo, a turma da confraria