terça-feira, 27 de maio de 2008

O etnógrafo da Belle Époque

Amigos, no sábado passado, o Prosa & Verso, do Globo, publicou uma resenha minha sobre o livro da antropóloga Julia O'Donnell sobre João do Rio, resultado de sua dissertação de mestrado, defendida no Museu Nacional. O livro se chama De olho na rua — A cidade de João do Rio, e foi publicado pela editora Jorge Zahar Editor (R$ 39,90), que sempre publica os trabalhos dos alunos do curso de antropologia social do Museu Nacional da UFRJ. Se a iniciativa é boa, por um lado, pois as publicações de textos antropológicos, sobretudo sobre a cidade, estão cada vez mais raros, por outro lado, é uma pena que a editora se atenha exclusivamente a textos dos alunos do Museu. Há uma profusão de excelentes dissertações e teses de antropólogos do IFCS/UFRJ, UFF, UERJ, Uenf, entre outros, que são muitas vezes superiores em termos de qualidade a certos ensaios publicado sob a coordenação do Gilberto Velho, do Museu. O trabalho de Lenin Pires, por exemplo, sobre a relação dos vendedores ambulantes nas linhas de trens com a polícia ferroviária merecia uma bela edição; o mesmo pode ser dito dos dois trabalhos de Soraya Simões: a dissertação sobre a Vila Mimosa e a tese sobre a Cruzada São Sebastião. São trabalhos etnográficos de fôlego.

Outra coisa, era importante que as editoras pensassem em reeditar trabalhos no campo da antropologia urbana sobre a cidade do Rio. A primeira pesquisa sistemática sobre um bairro do Rio, o Catumbi, por exemplo, cujo resultado foi publicado com o título de Quando a rua vira casa e que foi coordenada pelos antropólogos Marco Antonio da Silva Mello e Arno Vogel, com o pessoal do Ibam, merecia uma reedição, não só por seu valor metodológico e histórico, mas também por sua atualidade.


Julia, a autora do livro que originalmente foi sua dissertação de mestrado

Bem, de qualquer modo, abaixo reproduzo a resenha, conforme publicada no Prosa & Verso, apenas corrigindo os nomes dos núcleos de pesquisas mencionados que, por um ataque de dislexia e cansaço, inverti na versão impressa.


A capa do livro, o Rio da Belle Éppoque e João

O etnógrafo da Belle Époque
Livro articula antropologia urbana, história e literatura na obra de João do Rio

Paulo Thiago de Mello

As narrativas de João Paulo Barreto, o João do Rio, sobre a vida nas ruas do Rio de Janeiro — quando a cidade amadurecia seu caráter cosmopolita — evidenciam uma sensibilidade etnográfica extraordinária. A partir dessa constatação a antropóloga Julia O'Donnell costurou um ensaio epistemológico que amarra antropologia urbana, história e literatura, usando as crônicas do popular escritor carioca como se fossem anotações de campo de um etnográfo. Com isso, ela extrai material para uma análise da cidade, num momento em que o fenômeno urbano transformava o modo de vida e as relações sociais do início do século XX.

O estudo, originalmente uma dissertação de mestrado defendida no Museu Nacional da UFRJ, estabelece um diálogo entre o autor de A alma encantadora das ruas e Robert Ezra Park, um dos fundadores da chamada Escola Sociológica de Chicago, responsável por uma importante tradição de pesquisa de campo sobre a cidade.

Contemporâneo de João do Rio, Ezra Park desenvolveu com seus colegas da Universidade de Chicago uma metodologia etnográfica voltada para a vida citadina. O grande laboratório desses pesquisadores era a própria Chicago, um dos principais centros metropolitanos dos Estados Unidos, onde estava o maior entrocamento ferroviário do país, área de milhões de imigrantes e de problemas sociais, como pobreza, crime e racismo, que ganhavam nova expressão no espaço urbano.

Atento à vida nas ruas, Ezra Park desenvolveu o conceito de ecologia humana, afirmando que a cidade não é um aglomerado de bairros e ruas, fruto das intenções racionalistas de arquitetos e planejadores urbanos, mas sim o resultado das trocas sociais entre as pessoas que nela vivem, constituindo moralidades que se alternam sucessivamente conforme suas interações. Bairros que se transformam conforme o uso que se faz deles. São, portanto, o resultado do encontro de sonhos, desejos e visões de mundo de seus moradores.

João do Rio, por sua vez, expressa a mesma agudez de análise, quando chama a atenção a alma das ruas, comparando-as ao próprio homem. As ruas, diz ele, nascem, crescem, se transformam e morrem. Algumas dão para a alegria, outras para o medo. Traz em suas crônicas a idéia do flâneur, que percorre as ruas atento. Flanar é antes de tudo, segundo João do Rio, "um perambular com inteligência".

Ao considerar o cronista como seu informante, Julia também faz uso de uma metodologia de análise histórica, recorrendo a documentos como testemunho da "dimensão social do pensamento" do período.

Julia abre o livro traçando a conjuntura histórica da cidade e de João do Rio. No segundo capítulo, se debruça sobre a rua "como protagonista da observação" do escritor e faz as aproximações com Ezra Park e a Escola de Chicago. Em seguida, analisa as observações do cronista em relação ao comportamento humano nas ruas do Rio. E conclui com generalizações sobre uma idéia de carioquismo a partir das observações do escritor.

A afinidade entre João do Rio e Ezra Park talvez explique o prestígio que o método de pesquisa urbana de Chicago tenha alcançado no Brasil, ao passo que na França, por exemplo, só nos anos 70 os textos de Chicago foram traduzidos e abriram-se linhas sistemáticas de pesquisa.

No Rio, além do Museu Nacional, núcleos de pesquisa antropológica voltados exclusivamente para a cidade se multiplicam, como o Laboratório de Etnografia Metropolitana (LeMetro), do IFCS/UFRJ, o Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas (Nufep), da UFF, entre outros.

domingo, 18 de maio de 2008

Mariposas no Projeto Mapa



A participação no evento do Projeto Mapa foi uma experiência das mais instrutivas para mim, apesar do torturante nervosismo que a coisa toda provocou. Subir ao palco e ler fragmentos de um texto em prosa de teor intimista me parecia um exercício fadado ao infortúnio. Some-se a isso minha dicção balbuciante, a leitura no palco com pouca luz e outros fantasmas que rondaram todo o processo até a passagem de som.

Mas, ao contrário das projeções mais sombrias, o evento foi ótimo e a na hora do pega-pra-capar, uma estranha calma me invadiu e li com ritmo, sem tropeços e até mesmo com alguma intensidade. Passado o susto, a sensação foi boa, sobretudo porque não deixou de ser uma espécie de teste em relação à forma como os fragmentos das Mariposas chegaria aos ouvidos do público. O texto íntimo finalmente saiu do ninho e foi reapropriado pela audiência, que fez dele outros sentidos.

Também foi um aprendizado. Ler prosa exige uma mexida no texto, para deixá-lo, digamos, mais verbalizável. É algo que o Alexei Bueno disse sobre impropriedade da poesia como arte cênica (do que discordo, embora concorde com muitas ponderações do poeta). A poesia se presta mais às declamações. Os versos, normalmente, já demarcam o ritmo da leitura em voz alta e, dependendo das imagens que cria, facilita o lado cênico da apresentação. O Chacal, por exemplo, tem um jeito de mover o corpo, soltando as palavras das entranhas. Ele se retorce e cospe literalmente o verbo.

O texto de prosa é uma outra história. As imagens são desconexas em termos de ritmo, rima e imagens. O texto lido em voz alta, declamado com alguma presença cênica, performática, impõe certas condições para manter os ouvidos da audiência ligados. O texto de prosa permite muito facilmente que o ouvinte se disperse, converse, peça um chope e perca o fio da meada. Mas, no caso do Projeto Mapa, há um grande apoio da música, que não entra como fundo, mas como co-protagonista. A leitura funciona como um solo instrumental verbalizado. Em vez da guitarra ou do sax, entra o texto, com o tema da música ao fundo. Isso tudo dá um relevo ao texto e, aí, até mesmo a prosa cai bem.

No meu caso, a leitura dos fragmentos das Mariposas, uma coisa intimista com certas tensões sensuais, casou muito bem com o tema do Wayne Shorter Footprints, uma balada valseada das melhores. A leitura entrou como mais um instrumento solando. Fizemos o tema duas vezes, eu li a primeira parte, o guitarrista solou, eu li a segunda e a banda fez o tema mais duas vezes para fechar. No fim, fiquei com vontade de fazer mais, exatamente como o Marcelo Magdaleno, idealizador do projeto, previu.

Flávio Izhaki também leu prosa e com um desafio maior, porque trouxe fragmentos de um romance, ou seja partes de um enredo maior, ao passo que minhas Mariposas se prestam mais à fragmentação, já que são memórias recortadas. Porém, Flávio atravessou bem o incêndio. Pensando retrospectivamente, acho que o Marcelo Moutinho foi o que melhor costurou essa integração de prosa e música.

O Otto fechou a noite, colocando o evento nas alturas. Inspirado pelas leituras anteriores, leu pela primeira vez alguns poemas seus de boa cepa.

Tudo foi gravado em vídeo e não sei como saiu e nem quando ficará disponível. Maiores informações sobre o evento podem ser encontradas no site do Projeto Mapa (veja o link ao lado).

Além do show, foi ótimo reencontrar, após mais de 20 anos, Carmen Molinaro, uma amiga do século XII.



Abaixo, os dois fragmentos das Mariposas, exatamente como foram lidos:

Tema do Footprints, duas vezes e em seguida o primeiro fragmento:

Ela tem curvas. Todas elas têm. Mas sua textura muda e traz odores sutis, suores suaves, que a constragem e me embalam. Do centro de suas pernas saem mariposas. Sua floresta esconde um sol de úmidos raios. Muitas coisas acontecem ali. Misteriosas, emaranhadas, espessas, escorregadias. Exploro bem de perto seu território, com olhos de míope, farejando, tateando com todos os sentidos. Durante séculos, atravesso seus vales, mergulho em seu lago e me enrolo em sua pele transparente. Sorvo seus líquidos, mordo sua carne, bebo seu sangue e deixo sinais nas curvas de suas coxas. Cravo minha marca com caninos afiados. Depois, me cubro com seus cabelos e me deixo ficar, eterno vigilante de minha conquista. Está sempre de passagem, pronta para fugir. Mas às vezes se distrai e me fecunda de alegrias espantosas, até que o amanhecer a devolva aos abismos.

Solo de guitarra e o segundo texto:

Era frágil como um passarinho. Olhar ciscando, impreciso, procurando saidas. Respirava sua sina de ninfa e escondia o medo na languidez dos gestos, nas palavras de obscenidade óbvia. Exalava um perfume barato. Os cabelos, duros de tanta tinta, eram cores improváveis, tom sobre tom de muitas camadas, como as histórias de seu dia-a-dia, que se sucediam rapidamente. Mas eu a via sempre menina. Perdido num turbilhão de dúvidas, não sabia se a devorava ou a salvava de uma vez por todas. Era ela quem decidia, afinal, quando me despia a alma e , assustada como um passarinho, me engolia.

domingo, 11 de maio de 2008

Voltando aos poucos

Amigos, estou com um laptop precário, que não permite as mesmas estripulias de antes, mas pelo menos me deixa colocar alguns textos e fotos, sem muitas firulas. Aproveito a oportunidade para agradece à Camaleoa, que me enviou várias edições do Café Literário e do Jornal da Praça, com poetas e prosadores de Sampa. Como sempre, bom material, não apenas os textos da Camaleoa (cujo blog pode ser acessado nos links ao lado), mas também da apocalíptica Débora Aligieri, de quem gosto muito, e do Eduardo Barrox, Camile M, Abel Fernandes e outros poetas.


Camaleoa bebendo o seu Café Literário

E já que o assunto é poesia e prosa, vamos seguir nessa trilha, apreoveitando para anunciar o novo evento do Projeto Mapa, no Cinemathèque, em Botafogo. Trata-se do projeto elaborado pelo meu irmão Marcelo Magdaleno, ex-saxofonistas da banda Canastra e que convida prosadores e poetas para dividir o palco com os músicos numa jam session em que o texto entra como um instrumento. Já falei sobre isso aqui em Pindorama, alguns posts abaixo. Dessa vez, os convidados são: o poeta Chacal, o músico Otto, o escritor Flavio Izhaki e este pobre e desvalido escriba que vos fala. Vejam filipeta abaixo.



Bem, ficam então os dois registros rápidos.