
Querida amiga:
Sei que estás embrenhada no mato, em busca de um réveillon de paz e silêncio, mas te envio saudações desde a concretude dessa urbe incandescente a pleno vapor do verão. Estamos mergulhados em dias de mormaço e preguiça. A cidade cozinha a 40 graus e todos trazemos no rosto as marcas do ar indolente e abafado. A canícula me lembra o primeiro grande verão de minha vida. Só que, ao contrário de hoje, a grande ansiedade no peito era causado pela vida que se descortinava à minha frente, com suas promessas infinitas de felicidade e amor e todos os riscos inerentes. Agora, o que me afeta são umas ziqueziras esquisitas, talvez prenúncio de um pirepaque fulminante. Tenho dores generalizadas e diáfanas, difíceis de apontar ao médico. Também me dói muito o bolso vazio, que anda com teias de aranha. Bem, talvez exagere. Mas a ebulição do momento me obriga a dar tratos à bola e pensar em saídas e soluções para as mesquinharias de bancos e o coração solitário. Naquele outro verão, a dureza era outra.
Não poderia prever tal destino naqueles dias ensolarados de 1972, passados quase inteiramente na praia em frente ao píer de Ipanema. Minha única preocupação era a libido que transbordara de vez, na força de um menino de 12 anos, assombrado diante do mundo e, sobretudo, das meninas, que colocavam pela primeira vez suas tangas, enterrando velhas morais e preconceitos. Hoje, tudo isso parece banal. Vemos o sexo na TV e muito se relacionam virtualmente para evitar os constrangimentos de ter alguém ao lado. Mas, naqueles dias, os poucos centímetros a mais de bundinhas descobertas e a maior insinuação da virilha feminina, com que nos presentava a ousadia da carioca praiana, herdada de figuras como
Leila Diniz, representaram uma revolução nos costumes. E a praia era o palco central. O sexo nunca era uma coisa
clean, simples e mecânica. Estava sempre envolto em enredos labirínticos. Nossa imaginação era um poderoso alucinógeno. Vivíamos apaixonados e os brutos também amavam.

A ditadura militar, ao mesmo tempo em que oprimia, nos fazia dar um sentido de urgência às coisas mais banais. Todos tínhamos alguém perto exilado, preso, morto ou na guerrilha e havia sombras em nossos calcanhares. Nossa paranóia era calibrada para não virar loucura. Alguns sucumbiram. Lembro-me que ganhei um disco de
Pajarito, um cantor uruguaio de protesto que, se não a memória não me falha, havia sido assassinado pelos militares (posso estar fazendo confusão com o chileno
Victor Jara, morto no Estádio Nacional logo após o golpe que derrubou
Allende). Levei o disco escondido para o colégio (naquela época, ginásio). E os amigos se reuniram para ouvi-lo, num esquema conspiratório de absoluto segredo.
A noção de violência urbana, como temos hoje, não existia. Não que os militares, com seus aparatos e opressão, garantissem melhor segurança, mas sim porque a imprensa ainda não havia se ocupado do assunto, transformando-o em um problema público, que não nos sai mais da cabeça. Mas não deixa de ser uma loucura que o rigor moral, de estilo talibã, que dominava a nossa sociedade, começasse a se afrouxar justamente no momento mais
hardcore da ditadura. Certamente era uma resposta da sociedade a ela.
Muita coisa mudou desde então. Deixamos de ter uma cognição literária e passamos a ver o mundo em cores de um audiovisual. Da imaginação para o estonteante videoclipe. As cenas deixaram de ser imaginadas e se impuseram cruamente, com poucas possibilidades de segundas leituras e interpretações. A cena
tout court. A morte da metáfora. Os enredos ganharam força, mas o jeito de contá-los teve que se neutralizar, num processo de assepsia literária, que tornou insuportável, aos olhos dos críticos, qualquer firula fora das normas de redação dos jornais. Pois o texto jornalístico contaminou a literatura e tudo o mais, inclsuive nossa forma de pensar e ver o mundo.
O que importa são as fábulas, que dizem sempre a mesma coisa de forma diferente para reiterar os valores do tempo, incessantemente. Veja, por exemplo, a revista do
Globo de hoje. Ela traz 12 histórias escritas por autores de diversas gerações, que têm a incumbência de falar sobre um determinado mês do ano. Estão lá desde
Ferreira Gullar à minha amiga
Antonia Pellegrino.
Não acho ruim o jeito de hoje, o que acho ruim é que os especialistas só admitam esse único jeito.
Antonia, que tem 28 anos, abre seu conto assim:
Leleco é um azougue, menino espoleta descabelado, às vezes mal educado pois anda na frente da turma sem nem olhar pra trás, consulta seu relógio de ponteiro parado no pulso e diz que está atrasado, acelera o passo, molha o dedo na boca e o aponta para o céu, fecha os olhos pra escutar com mãos sujas de tinta que pintam cavalos sem cela quando olham pra motoca e entende de estalo de onde vem o vento, então o cowboy se apronta pra cavalgar nos campos de brigadeiro, céu redondo de novembro azul sem fim.
Bacana, não é mesmo? Gosto da forma solta e simples. O enredo salta sem as amarras dos recursos estilísticos mais
literários. Ou seja,
Antonia escreve no paradigma do texto jornalístico. Agora, querida amiga, veja a abertura do conto de
Veronica Stigger, de 34 anos. Ela é ainda mais telegráfica:
Eles eram atores coadjuvantes. Cento e cinqüenta ao todo. Os melhores do país. Por isso foram convidados para participar da comemoração de final de ano.
Tony Belloto (47 anos), dos
Titãs, que também iniciou uma carreira de escritor de romances policiais, é do mesmo estilo:
O cantor é um menino, não deve ter mais que 18 anos. Mas seu senso de ritmo é fantástico! E a voz? Parece um crioulo cantando.
Agora, veja o que o mestre
Ferreira Gullar, aos 77 anos, escreve: rara simplicidade literária, que escapa à forma de notícia jornalística e enche o enredo de sonho:
O verão invadiu outubro e expulsou a primavera. Aqui estou neste dia esplendente, reduzido a meu corpo. Sem passado, sem sonho, sem fuga. Presente em minhas unhas, em minha pele, em meus cabelos. Eu e os demais habitantes desse outubro coroado.
Quero dizer que gosto de todos os autores citados aqui. Mas meu entendimento do mundo foi forjado pela imaginação evocada pelas letras de livros ou pelas narrativas orais que aguçavam a fantasia, mais do que a sucessão incontrolável de imagens da televisão. Por isso, sou dado ao sonho e um texto como o de
Gullar me dá mais do que enredo da história, me dá a forma como ela é contada.