domingo, 30 de dezembro de 2007

Entre verões



Querida amiga:

Sei que estás embrenhada no mato, em busca de um réveillon de paz e silêncio, mas te envio saudações desde a concretude dessa urbe incandescente a pleno vapor do verão. Estamos mergulhados em dias de mormaço e preguiça. A cidade cozinha a 40 graus e todos trazemos no rosto as marcas do ar indolente e abafado. A canícula me lembra o primeiro grande verão de minha vida. Só que, ao contrário de hoje, a grande ansiedade no peito era causado pela vida que se descortinava à minha frente, com suas promessas infinitas de felicidade e amor e todos os riscos inerentes. Agora, o que me afeta são umas ziqueziras esquisitas, talvez prenúncio de um pirepaque fulminante. Tenho dores generalizadas e diáfanas, difíceis de apontar ao médico. Também me dói muito o bolso vazio, que anda com teias de aranha. Bem, talvez exagere. Mas a ebulição do momento me obriga a dar tratos à bola e pensar em saídas e soluções para as mesquinharias de bancos e o coração solitário. Naquele outro verão, a dureza era outra.

Não poderia prever tal destino naqueles dias ensolarados de 1972, passados quase inteiramente na praia em frente ao píer de Ipanema. Minha única preocupação era a libido que transbordara de vez, na força de um menino de 12 anos, assombrado diante do mundo e, sobretudo, das meninas, que colocavam pela primeira vez suas tangas, enterrando velhas morais e preconceitos. Hoje, tudo isso parece banal. Vemos o sexo na TV e muito se relacionam virtualmente para evitar os constrangimentos de ter alguém ao lado. Mas, naqueles dias, os poucos centímetros a mais de bundinhas descobertas e a maior insinuação da virilha feminina, com que nos presentava a ousadia da carioca praiana, herdada de figuras como Leila Diniz, representaram uma revolução nos costumes. E a praia era o palco central. O sexo nunca era uma coisa clean, simples e mecânica. Estava sempre envolto em enredos labirínticos. Nossa imaginação era um poderoso alucinógeno. Vivíamos apaixonados e os brutos também amavam.



A ditadura militar, ao mesmo tempo em que oprimia, nos fazia dar um sentido de urgência às coisas mais banais. Todos tínhamos alguém perto exilado, preso, morto ou na guerrilha e havia sombras em nossos calcanhares. Nossa paranóia era calibrada para não virar loucura. Alguns sucumbiram. Lembro-me que ganhei um disco de Pajarito, um cantor uruguaio de protesto que, se não a memória não me falha, havia sido assassinado pelos militares (posso estar fazendo confusão com o chileno Victor Jara, morto no Estádio Nacional logo após o golpe que derrubou Allende). Levei o disco escondido para o colégio (naquela época, ginásio). E os amigos se reuniram para ouvi-lo, num esquema conspiratório de absoluto segredo.

A noção de violência urbana, como temos hoje, não existia. Não que os militares, com seus aparatos e opressão, garantissem melhor segurança, mas sim porque a imprensa ainda não havia se ocupado do assunto, transformando-o em um problema público, que não nos sai mais da cabeça. Mas não deixa de ser uma loucura que o rigor moral, de estilo talibã, que dominava a nossa sociedade, começasse a se afrouxar justamente no momento mais hardcore da ditadura. Certamente era uma resposta da sociedade a ela.

Muita coisa mudou desde então. Deixamos de ter uma cognição literária e passamos a ver o mundo em cores de um audiovisual. Da imaginação para o estonteante videoclipe. As cenas deixaram de ser imaginadas e se impuseram cruamente, com poucas possibilidades de segundas leituras e interpretações. A cena tout court. A morte da metáfora. Os enredos ganharam força, mas o jeito de contá-los teve que se neutralizar, num processo de assepsia literária, que tornou insuportável, aos olhos dos críticos, qualquer firula fora das normas de redação dos jornais. Pois o texto jornalístico contaminou a literatura e tudo o mais, inclsuive nossa forma de pensar e ver o mundo.

O que importa são as fábulas, que dizem sempre a mesma coisa de forma diferente para reiterar os valores do tempo, incessantemente. Veja, por exemplo, a revista do Globo de hoje. Ela traz 12 histórias escritas por autores de diversas gerações, que têm a incumbência de falar sobre um determinado mês do ano. Estão lá desde Ferreira Gullar à minha amiga Antonia Pellegrino.

Não acho ruim o jeito de hoje, o que acho ruim é que os especialistas só admitam esse único jeito. Antonia, que tem 28 anos, abre seu conto assim:

Leleco é um azougue, menino espoleta descabelado, às vezes mal educado pois anda na frente da turma sem nem olhar pra trás, consulta seu relógio de ponteiro parado no pulso e diz que está atrasado, acelera o passo, molha o dedo na boca e o aponta para o céu, fecha os olhos pra escutar com mãos sujas de tinta que pintam cavalos sem cela quando olham pra motoca e entende de estalo de onde vem o vento, então o cowboy se apronta pra cavalgar nos campos de brigadeiro, céu redondo de novembro azul sem fim.

Bacana, não é mesmo? Gosto da forma solta e simples. O enredo salta sem as amarras dos recursos estilísticos mais literários. Ou seja, Antonia escreve no paradigma do texto jornalístico. Agora, querida amiga, veja a abertura do conto de Veronica Stigger, de 34 anos. Ela é ainda mais telegráfica:

Eles eram atores coadjuvantes. Cento e cinqüenta ao todo. Os melhores do país. Por isso foram convidados para participar da comemoração de final de ano.

Tony Belloto (47 anos), dos Titãs, que também iniciou uma carreira de escritor de romances policiais, é do mesmo estilo:

O cantor é um menino, não deve ter mais que 18 anos. Mas seu senso de ritmo é fantástico! E a voz? Parece um crioulo cantando.

Agora, veja o que o mestre Ferreira Gullar, aos 77 anos, escreve: rara simplicidade literária, que escapa à forma de notícia jornalística e enche o enredo de sonho:

O verão invadiu outubro e expulsou a primavera. Aqui estou neste dia esplendente, reduzido a meu corpo. Sem passado, sem sonho, sem fuga. Presente em minhas unhas, em minha pele, em meus cabelos. Eu e os demais habitantes desse outubro coroado.

Quero dizer que gosto de todos os autores citados aqui. Mas meu entendimento do mundo foi forjado pela imaginação evocada pelas letras de livros ou pelas narrativas orais que aguçavam a fantasia, mais do que a sucessão incontrolável de imagens da televisão. Por isso, sou dado ao sonho e um texto como o de Gullar me dá mais do que enredo da história, me dá a forma como ela é contada.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Acordo salva o Penafiel



Enfim, uma boa notícia. O Joaquim Ferreira dos Santos, cronista do Globo e responsável pela coluna Gente Boa, me contou que o Penafiel não vai mais fechar. A casa estava com os dias contados para virar uma sapataria, mas segundo informações apuradas pelo Joaquim, uma negociação com o novo proprietário teria salvado do infortúnio uma das últimas boas casas de pasto do Centro carioca. Ela vai fechar para uma pequena reforma a partir da próxima sexta-feira e reabrirá em seguida.



Antes de saber disso, almocei lá na última segunda-feira, com meu orientador, e fiz mais uns registros do lugar. Uma espécie de arqueologia sentimental e memória de uma casa de pasto do início do século passado (o restaurante foi fundado em 1913). Comi um frango à oriental com purê que estava delicioso.

sábado, 8 de dezembro de 2007

O amor no balcão


Um beijo anônimo na Colombo

A cidade, como dizia Ezra Park, não é apenas um aglomerado de prédios e ruas, mas sobretudo os sonhos das pessoas que nela habitam. Esse imaginário citadino é algo que vai se transformando constantemente, sob influência dos mais diversos fatores. Para alguns, as mudanças aparecem como uma descaracterização irremediável de algum modelo nostálgico e ideal, que toma forma mais no imaginário do que na realidade concreta, tangido por lembranças, desejos e fantasias, que configuram, ou transfiguram, noções de uma urbanidade ideal, corroída pela voracidade do tempo, que a tudo transforma.


Mila na Adega Pérola

Assim, velhos sobrados dão lugar a condomínios auto-suficientes e distantes da vida nas calçadas; velhos pés-sujos se transformam em modernos botecos, com suas chopeiras importadas de São Paulo; e casas de pasto portuguesas, do início do século passado, simplesmente desaparecem, como a Lisboeta, o Penafiel, o Bico Doce e tantos outros. É inevitável uma certa melancolia ao presenciar esses fenômenos urbanos incontroláveis e incontornáveis, pois essas transformações forçosamente nos lembram de nossa própria finitude, configurando aí um elemento psíquico-emocional poderoso, pois sabemos que vamos desaparecer tanto quanto esses velhos sobrados e suas maneiras de ser e estar na cidade.


Beijo roubado no Cervantes

Mas há também aqueles cuja nostalgia traz elementos patológicos e fetichistas. Idealizam um mundo que não viveram, mas do qual sentem uma saudade terminal e se engajam em exercícios retóricos preservacionistas, muitas vezes culminando em lágrimas emocionadas diante do que acreditam ser o último remanescente de um mundo belo, porém inexistente. Eu mesmo, meus amigos, devo confessar que me encaixo nesse perfil sentimental, misturando memória e desejo, como dizia T. S. Eliot, em minha noção de passado.


Por trás da tulipa, no Aurora

O problema desses mergulhos um tanto sentimentalóides é que muitas vezes deixam a visão opaca e jogam sombra sobre as coisas do presente. Ao nos deslocarmos para o passado, esquecemos, por assim dizer, o presente e as coisas efervescentes e interessantes que ocorrem no aqui-agora. “Essa ocorrência silenciosa”, como dizia meu querido Manduka, ao me descrever o sentido do adágio popular: “pega pra capar!”.


Flerte no Jobi

E uma das coisas que permanecem nas grandes cidades, como um emblema de uma identidade citadina e cosmopolita, são as infinitas formas que se configuram os impulsos boêmios. E, no Rio de Janeiro, o botequim é o cenário privilegiado dessas “ocorrências silenciosas”... Bem, na verdade, quase nunca silenciosas, mas vale a licença poética para encaixar o adágio Mandukiano.


Sô, num pé-sujo de Gramado

Sim, é triste ver, por exemplo, o velho pé-sujo Belmonte se transformar num arremedo do que foi no passado. Ver o suculento sanduíche de carne assada dar lugar a salgadinhos uniformes, produzidos em escala industrial fordista. Mas esses são meus olhos conservadores. E, afinal, quem sou eu para dizer à multidão de jovens boêmios que se amontoam em seus balcões modernizados que eles estão errados, são alienados e inconseqüentes em suas opções de lazer etílico? Seria muita presunção, não é mesmo? Mas, por outro lado, posso lamentar, aqui no meu cantinho, a perda de certos modos e costumes de viver a boemia.


Bianca, num pé-sujo de beira de estrada, rumo à Ilha Grande

Mas também festejar certas mudanças, como ventos de boa renovação. Uma delas é a presença cada vez mais constante e efervescente das mulheres nos botequins da cidade. Espaço tipicamente masculino, reduto em que lamuriávamos, entre um copo e outro, nossos amores fracassados, contando com a cumplicidade de nossos pares, capazes de entender a dor do desencontro com o sexo oposto, pois também tinham, em algum momento, passado pelo calvário amoroso: “Mulher é o cão!”, dizíamos amargurados.


Ana D., no Belmonte

Agora, nessas ondas de mudanças, eis que são elas que invadem nosso pedaço, trazendo um hibridismo interessante ao outrora reduto masculino. E com elas, o amor deixa as retóricas amarguradas das conversas de botequim, para se transformar em encontros potencialmente reais. Ei-las ao nosso lado, no balcão, brindando à vida! Pois então que se cheguem e sejam bem-vindas.