quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Mais um Penafiel fecha as portas


O Penafiel fechará as portas no dia 15, a seis anos de seu centenário

Amigos, está confirmado: o restaurante Penafiel vai fechar as portas no dia 15 de dezembro. Fundado em 1913, o Penafiel é uma das últimas casas de pasto portuguesas do velho Centro carioca, onde o freguês não escolhe a comida pelo cardápio. Ali, o ritual é abrir as panelas e espiar o menu do dia, dando uma boa aspirada nos aromas que impregnam o ambiente. E que ambiente. Ventiladores italianos dos anos 40, geladeira de madeira, piso de ladrilhos, pé-direito alto e garçons tão antigos no ramo, quanto a casa. Esta será preservada, pois o imóvel, que é mais antigo que o restaurante, é tombado pelo Patrimônio Histórico. Até mesmo uma escarradeira (lacrada, evidentemente), peça de museu, sobreviveu ao lado da pia.

Localizado na Senhor dos Passos, 121, o Penafiel fica ao lado de um McDonald’s, na entrada do Saara. Concorrência difícil de bater nestes dias de pulverização das tradições e desvalorização da memória. É verdade também que os preços andavam um tanto salgados para os bolsos de todo dia. Ir ao Penafiel estava se tornando um de-vez-em-quando para mim. Mas sempre que chegava por lá, era a alegria e os pratos de uma fartura incomparável. Lembro do risoto de camarão com tempero caseiro, da carne assada com batatas coradas e outras iguarias, como o cherne à doré, servido com purê de batatas, camarão, bananas à milanesa e cebola dourada. A cerveja sempre gelada, daquelas que chegam à mesa mofadas por uma camada fina de gelo. De entrada, pasteizinhos especiais.


Casal se beija na Colombo, casa se adaptou aos costumes

É o segundo Penafiel que o Rio perde. O primeiro foi o pé-sujo Penafiel da Gamboa, na esquina da travessa Cunha Matos com rua do Livramento. Boteco famoso pelo chope cremoso (tinha uma chopeira raríssima, em forma de barril e uma serpentina com diâmetro menor) e pelo ambiente boêmio, não resistiu ao esvaziamento do bairro provocado pela onde de violência. As empresas foram deixando a região e a clientela caiu drasticamente. No caso do Penafiel do Saara, o golpe veio da concorrência dos restaurantes a quilo e dos fastfood. Também vi com tristeza o fim do Garoto das Flores, da Lisboeta e as desfigurações de Monteiro, Picote e Belmonte, só para citar alguns. E outros estabelecimentos que perderam seus donos e, por isso, mudaram, como é o caso do Salete e, agora, o Bar do Jóia, cuja viúva, segundo soube (mas ainda não confirmei), está sendo pressionada a deixar o imóvel, onde o boteco existe há quase 100 anos.

Uma pena. Cada vez que uma casa dessas fecha, a sensação é que uma parte de nós morre com elas. Nossa memória sentimental da cidade vai perdendo grandeza, imensidade, amplidão. Vai se restringindo a uns poucos espaços sobreviventes. Outro dia, de férias pela cidade, perambulei pelo Centro. Bebi um chope no Opus e almocei na Colombo, só para me lembrar desse canto do Rio, cada vez mais esquecido e engolido pelas modas e construções apressadas. Velhos sobrados são postos abaixo e em seu lugar erguem-se novidades duvidosas.

Não sou saudosista nem fetichista do passado. Gosto de novidades. Mas minha alma dói ao ver essas tradições desaparecerem devagarinho, embaixo dos nossos narizes.

domingo, 25 de novembro de 2007

Casamento no samba


Os padrinhos quase esqueceram do casamento, coisas de botequim e samba

Uma coisa leva à outra. Tarde de sábado no Rio de Janeiro ensolarado. Se o sujeito não está na praia, está no bar. Ou na livraria. Se esta for a Folha Seca, na rua do Ouvidor, cercada de botecos e igrejas por todos os lados, com direito à roda de samba de primeira. O destino se torna ainda mais inevitável se a desculpa para encontrar a turma por lá for o lançamento do livro de um amigo. No caso, Luís Pimentel estava autografando suas crônicas reunidas sob o título Noites de sábado. Também na programação, o lançamento do novo CD do Zé Luiz do Império, Malandros maneiros.


Os músicos da roda de samba com os padrinhos no fundo (Zé Luiz comanda o samba, com o microfone na mão)

Cheguei atrasado, quando a festa ia a pleno vapor e a turma já estava calibrada, a julgar pela quantidade de garrafas em cima das mesas que ocupavam boa parte da extensão da Ouvidor. E fui encontrando gente: Madá, Flavinha e Vinícios; Moutinho e Flá, Aydano e Flávia Oliveira; Hugo Suckman, Solange e Gabi, Marechal, Loredano, Cesinha Tartaglia, Pratinha, mestre Simas, Macalé, Rodrigo Folha Seca entre outros tantos. Mas eis que, ainda com a garganta seca, me deparo com uma cena inusitada: quatro ou cinco sujeitos engravatados, na maior beca, em torno de uma dama vestida de preto e de rara beleza, bebiam cerveja num dos pés-sujos ao lado da Folha Seca.


A roda que já se tornou uma tradição da rua do Ouvidor aos sábados

Não pensei duas vezes: pedi para tirar uma foto do grupo e descobri que eram padrinhos de um casamento que estava para acontecer numa das igrejas da esquina. Faziam hora no boteco, ouvindo o samba. O contraste das roupas chamou a atenção e logo a turma foi cercada pelos boêmios, que já pensavam em penetrar na cerimônia de casamento. Afinal, casamento dá samba. Na igreja ou fora dela.


Padrinho e madrinha no balcão: fazendo hora antes da cerimônia

E se deu o velho sortilégio do botequim: cada padrinho que vinha chamar os que estavam bebendo para voltar à igreja, acabavam ficando. E cada dama de honra que aparecia era ovacionada, como se fosse o Mengão entrando em campo. Meu amigo Cesinha Tartaglia ( que também fez um crônica sobre o ocorrido, vejam aqui) não escondia seu fascínio:

— Se a madrinha já é bonita assim, imagine a noiva...

Por fim, o nome do noivo chegou aos ouvidos dos batuqueiros e a Ouvidor, em uníssono, gritou, chamando:

Horácio! Horácio! Horácio!

Acabei não conhecendo Horácio e nem a noiva. Mas quando fui embora ainda dei uma espiada no casamento, que também estava acabando. Peguei então o caminho de casa, pensando na vida nesta cidade de tantas cerimônias e rituais.

O evento virou notícia em vários blogs. Além do Cesinha, também comentaram o assunto: Moutinho, no seu Pentimento; Aydano, no Chope do Aydano; o mestre Simas no seu Histórias do Brasil; e até no Ancelmo Goes.

domingo, 18 de novembro de 2007

Emoção e reflexão no Cinemathèque


Folder do show do Projeto Mapa, outra série virá

Outro dia, durante o show Projeto Mapa — Música + Poesia, no Cinemathèque, ouvi de uma amiga que, não estava muito satisfeita com a proposta do espetáculo, a seguinte frase, após ter perguntado o que ela estava achando do evento:

— Eu só gosto do que me emociona.

Confesso que fiquei surpreso porque eu mesmo estava muito emocionado com tudo o que estava acontecendo no segundo andar da casa do Leo Feijó, um dos mais novos espaços de eventos musicais e performáticos da cidade. O pocket show da banda do meu amigo Marcelo Magdaleno, o Madá, faz exatamente o que o nome sugere, misturar música e textos recitados por convidados especiais, em várias apresentações. No caso desse show específico, Madá chamou o escritor Marcelo Moutinho e o poeta Henrique Rodrigues, também meus amigos, e o artista plástico/músico/poeta Cabelo, que conheci na hora. Além de escritores, o evento também convida músicos, como o trompetista Guilherme Dias Gomes (que me lembrou Cláudio Roditi nos fraseados jazzísticos que improvisou com seu fluegelhorn). Enfim, quem quiser mais detalhes, pois haverá novas apresentações, veja o blog do projeto aqui.

Talvez o espetáculo mereça alguns ajustes aqui e ali, mas no geral, a mistura da leitura de prosa e poesia com a música ao vivo, tocada pela competente banda do Madá (saxofones alto e tenor), deu bom casamento. E emocionou não só a mim, mas à maioria das pessoas na platéia, que trazia figuras como Enrica Bernardelli e Thiago Thiago. Mas minha amiga, pelo que conheço de sua sensibilidade, é das coisas simples, que vão direto ao coração, sem intermediação do raciocínio ou do conhecimento. Para ela, basta uma boa roda de samba num pé-sujo e pronto, lá está ela emocionada ou então um bom filme que mexa com ela, ou uma pintura que a deixe angustiada. Emoção.


Marcelo Magdaleno toca saxofones alto e tenor no Projeto Mapa

E aí, de fato, o clima no Cinemathèque estava mais para um jazz lounge, com Cantaloupe de Herbie Hancock no repertório, mas com elementos cênicos que tiravam o espetáculo do âmbito de um show e o deslocava para a fronteira mais híbrida da performance. Teve uma hora, por exemplo, que Madá datilografou um texto, no ritmo da música, enquanto Moutinho lia sua prosa em meio a uma música de grande sofisticação harmônica e de elaboradas melodias.

Além disso, o casamento com o texto lido pelos três homens das palavras foi de sutilezas estimulantes. Cabelo, por exemplo, bagunçou o coreto num certo sentido surrealista, com seu humor e repertório vocabular instigante. Textos ferozes e engraçados. Henrique mandou os poemas de seu livro A musa diluída (editora Record), mencionado aqui neste Pindorama à propósito de uma crítica que tem a ver com o tema geral desse post. Concordo com Moutinho: o Henrique é um poeta de primeiríssima, que vem andando pela cidade um tanto desapercebido.


Moacyr Luz e Marcelo Moutinho

Mas foi Moutinho, autor de Somos todos iguais nesta noite (ed. Rocco), quem trouxe, para mim, a emoção, com sua refinada prosa sobre o assombro de um narrador-protagonista que vagueia por uma Cinelândia tomada pelo rito do carnaval em meio a uma viagem interna, subjetiva, densa e lírica. Texto de escritor grande, de beleza extraordinária e lírico na medida certa. Emocionante. Uma prova de que a prosa também cabe no encontro com a música. E o casamento com o som realçou o conteúdo do enredo, mas sem que a música ficasse como coadjuvante, apenas um fundo musical. A fala dos escritores obedecia à mesma estrutura jazzística dos improvisos dos instrumentos, que solam enquanto a banda mantém a base harmônica da música.

O espetáculo me lembrou um concerto de meu pai, o músico Gaudencio Thiago de Mello, em 1978, em Oberlin, Ohio, em que ele colocava o poeta iraniano Reza Baraheni recitando seus poemas socialistas em persa. Foi assombroso. O palco todo escuro, apenas o som do violão trazendo as melodias amazônicas do velho e, de repente, sem que ninguém esperasse, uma voz grave e densa recitava em persa a história de sua fuga do regime do xá pelo rio Safid. Parecia um mantra. E embora ninguém entendesse o que ele dizia, a sonoridade de seu recital era tão poderosa e se encaixava tão bem no rife amazônico que o velho fazia no violão, que, quando acabou, a perplexidade foi geral. Emoção pura. Levou um tempo para que as pessoas aplaudissem, mas quando o primeiro bateu palmas, foi uma ovação interminável.


Enrica Bernardelli e Thiago de Mello

Emoção, portanto, não precisa trazer a razão ao lado dela para que a arte seja transformadora, transgressora, enfim, algo bem diverso do entretenimento. O contrário, embora também seja possível, me parece ser uma operação mais difícil de ser realizada. Uma arte que seja pura razão e raciocínio não me parece ser capaz de realizar no público essa operação transcendental, que faz com que nunca mais sejamos os mesmos depois de passar por sua experiência. E, no caso da literatura, acho que a performance, seja o recital declamatório do poeta ou a leitura casual do escritor, dá uma dimensão ao texto muito diversa do que a mera leitura é capaz de nos dar. É emocionante ver um poeta recitar. Eu mesmo li o Grande Sertão: Veredas em voz alta, tentando dar a entonação que imaginava ser a fala do Riobaldo narrador. E foi assim que esse romance magistral se abriu para mim. Emoção.

O poeta Thiago de Mello contou-me uma história sobre o encontro dele com Décio Pignatari, um dos pais do Concretismo, em um jantar há alguns anos. Os dois poetas fazem trabalhos completamente distintos e, portanto, o encontro trouxe aquela dimensão de que a arte poética pode ser muito mais sempre. Foi este, mais ou menos, o diálogo, se a memória ainda me serve:

“Quero fazer uma poesia que ninguém entenda”, afirmou Décio.

“Nem mesmo tu?”, retrucou Thiago.

“Aí, seria a glória!”.

O quanto há de verdade nessa história não posso dizer, mas como anedota ela demarca bem uma divisão na poesia brasileira que o Concretismo como movimento demarcou, para o bem e para o mal. E Thiago me contou essa história justamente para exemplificar sua indignação com o ataque que o movimento e as linhagens que dele descenderam (mais na imprensa paulista do que na literatura, diga-se de passagem) fazem em relação ao lirismo, tido como afetação sentimentalóide (lembrei aqui da crítica que Renato Resende fez ao livro do Henrique, A musa diluída, que comentei aqui). Na mesma conversa, Thiago me disse:

“Paulinho, querem tirar da poesia a emoção. Eles acham que a emoção estraga o poema!”

Atacado por muita gente, o concretismo de fato inaugurou uma poesia racional, uma poesia cartesiana, do tipo penso, logo existo. O verbo como imagem, como obra plástica, que traz uma linguagem para além do contexto literário evidentemente pode emocionar, mas o faz a partir de operações cognitivas complexas, isto é, a partir do êxtase do raciocínio. Por isso, para Décio, quanto mais difícil for o seu poema, maior será o êxtase. Minha emoção com a poesia concreta passa muito pelas coisas que o Arnaldo Antunes faz, mas é uma onda completamente distinta da viagem que me leva o mergulho literário do enredo, em que a emoção é angustiada e incontrolável. Perto da explosão lírica de um Neruda ou Bandeira, por exemplo, esses poemas raciocinados são um mero prazerzinho, uma emoção contida dentro dos moldes da razão. Tento entender a mensagem, em vez de ser atravessado por ela, sem licença, sem perdão.

E é engraçado que o concretismo tenha inspirado o Leminski, que é um poeta do sentimento, que põe fogo nas palavras e emoção em suas obras. Seu Catatau, por exemplo, tenta buscar a razão em meio a um emaranhado de sensações. E não é à toa que o enredo do livro seja a viagem de Descartes protegido do sol de Recife sob um coqueiro, olhando o mar depois de ter fumando uma erva misteriosa que um nativo lhe oferecera: isto é, sinto, logo existo. Leminski, que se dizia mais concreto do que a trinca que inventou o movimento porque já nascera sob o signo dessa poesia, não fugiu nunca do lirismo, que é, na minha opinião, onde reside a força de sua poesia.


Gaudencio Thiago de Mello vive em Nova York há mais de 40 anos

Nos anos 70-80, muitos músicos de jazz e instrumentistas eruditos, que conheci e convivi (eu estudava música nesse período) aqui e em Nova York, torciam o nariz para qualquer música que tivesse uma harmonia simples. Não importava se o resultado era bom ou emocionante. Pelo contrário, quanto mais emocionante, pior. Música de qualidade tinha que ter harmonias complexas e intricadas, modulações, inversões harmônicas, melodias sinuosas etc. Dominando a linguagem da música, aprendi um idioma que me permitiu sentir um grande prazer ao perceber as manobras sutis de compositores ou intérpretes que, por exemplo, invertiam um acorde para dar à harmonia um movimento cromático, ou coisa que o valha. No início, isso inibia o meu sentido em relação às coisas mais simples, que eu confundia e categorizava como simplórias. Mas superei o preconceito e deixei meu coração se deleitar com tudo o que me emocionasse.

Meu pai, como maestro, dominava essa linguagem e eu, um dia, chamei sua atenção para as velhas melodias amazônicas de sua infância, que ele cantava quando me botava para dormir, contando as lendas da região. Sugeri que ele recuperasse essa sonoridade e assim ele fez, abrindo um filão totalmente novo e instigante na sua carreira. Melodias simples, mas de intensidade emocional altíssima.

Acho que a literatura viveu um processo semelhante e muita gente nos anos 70 e 80 torceu o nariz para o texto lírico, emocionado. Mas as novas gerações estão buscando, até por uma questão de necessidade, de novo a emoção. E é por isso que tantos movimentos poéticos têm acontecido pelo país.

O problema é que emoção é algo que varia segundo a sensibilidade de cada um e o mercado tenta empacotar tudo dentro de categorias comerciais e de consumo que ele inventa e a imprensa legitima. Para minha amiga, aquela produção toda do Projeto Mapa não chegou à sua alma. Para mim, ao contrário, foi pura emoção. E é assim que as coisas são.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Abraçando Joana



Meus níveis de testosterona entraram em ebulição ontem, depois que me deparei, cara a cara, com a bela Joana. Havia alguns séculos que não punha os meus olhos nos seus, amendoados e preguiçosos, que ela escondia por trás dos desnecessários óculos escuros... Ah! A vaidade feminina! Como sempre fazemos quando nos encontramos, demos um abraço de corpo inteiro, sem restrições nem pudores. Ficamos imóveis uma eternidade, enquanto nossos corpos se encaixavam lentamente, como se fossem duas metades que estavam perdidas no universo, à deriva.

No meio do mercado alheio ao nosso encontro, aderi ao seu ventre, graças ao esforço que ela fazia para se colocar nas pontas dos pés e me alcançar os olhos; seus seios esmagados pelo meu peito apertado de emoção. Senti aquela maciez colada em mim com profunda emoção e, mais atrás, o coração num compasso acelerado. Dei um cheiro em seus cabelos e pescoço com os olhos fechados, saboreando o encontro daquela mulher tão brejeira e lânguida. Tão tropical e mediterrânea. Por fim, um beijo em cada bochecha, estalado e úmido. Inteiro.



Foi um abraço que se situa na fronteira entre a cordialidade afetuosa e a intenção sensual, alimentada mais pelo que nos promete o futuro do que o passado que compartilhamos. Sempre nos encontramos com crescente afeto, que se funda numa promessa ainda não cumprida de uma experiência amorosa completa. E não me refiro apenas a sexo. Sexo também, mas não só. Por isso, nosso abraço traz essa marca difícil de decifrar. É um encontro cheio de entrelinhas, subjetivo e sensorial.

Depois conversamos, rosto e rosto na distância de nossa respiração, território de nosso afeto casual. Sempre fomos assim, de nos abraçarmos como amantes e depois deixarmos as coisas nas reticências, mas nunca na interrogação. “Te ligo!”, mentimos mutuamente. Mas é justamente a falsa promessa que evidencia da forma mais concreta o nosso amor eterno. Não sei que força poderosa é essa que nos atrai. Talvez sejamos um vinho de boa cepa, velho e frutuoso, que requer o tempo do respiro para ser apreciado propriamente. Por isso esperamos, à espreita, nas esquinas da cidade que compartilhamos, o momento de sorvermos um ao outro.