Folder do show do Projeto Mapa, outra série virá Outro dia, durante o show
Projeto Mapa — Música + Poesia, no
Cinemathèque, ouvi de uma amiga que, não estava muito satisfeita com a proposta do espetáculo, a seguinte frase, após ter perguntado o que ela estava achando do evento:
— Eu só gosto do que me emociona.
Confesso que fiquei surpreso porque eu mesmo estava muito emocionado com tudo o que estava acontecendo no segundo andar da casa do
Leo Feijó, um dos mais novos espaços de eventos musicais e performáticos da cidade. O
pocket show da banda do meu amigo
Marcelo Magdaleno, o
Madá, faz exatamente o que o nome sugere, misturar música e textos recitados por convidados especiais, em várias apresentações. No caso desse show específico,
Madá chamou o escritor
Marcelo Moutinho e o poeta
Henrique Rodrigues, também meus amigos, e o artista plástico/músico/poeta
Cabelo, que conheci na hora. Além de escritores, o evento também convida músicos, como o trompetista
Guilherme Dias Gomes (que me lembrou
Cláudio Roditi nos fraseados jazzísticos que improvisou com seu
fluegelhorn). Enfim, quem quiser mais detalhes, pois haverá novas apresentações, veja o blog do projeto
aqui.
Talvez o espetáculo mereça alguns ajustes aqui e ali, mas no geral, a mistura da leitura de prosa e poesia com a música ao vivo, tocada pela competente banda do
Madá (saxofones alto e tenor), deu bom casamento. E emocionou não só a mim, mas à maioria das pessoas na platéia, que trazia figuras como
Enrica Bernardelli e
Thiago Thiago. Mas minha amiga, pelo que conheço de sua sensibilidade, é das coisas simples, que vão direto ao coração, sem intermediação do raciocínio ou do conhecimento. Para ela, basta uma boa roda de samba num pé-sujo e pronto, lá está ela emocionada ou então um bom filme que mexa com ela, ou uma pintura que a deixe angustiada. Emoção.
Marcelo Magdaleno toca saxofones alto e tenor no Projeto Mapa
E aí, de fato, o clima no
Cinemathèque estava mais para um jazz lounge, com
Cantaloupe de
Herbie Hancock no repertório, mas com elementos cênicos que tiravam o espetáculo do âmbito de um show e o deslocava para a fronteira mais híbrida da performance. Teve uma hora, por exemplo, que
Madá datilografou um texto, no ritmo da música, enquanto
Moutinho lia sua prosa em meio a uma música de grande sofisticação harmônica e de elaboradas melodias.
Além disso, o casamento com o texto lido pelos três homens das palavras foi de sutilezas estimulantes.
Cabelo, por exemplo, bagunçou o coreto num certo sentido surrealista, com seu humor e repertório vocabular instigante. Textos ferozes e engraçados.
Henrique mandou os poemas de seu livro
A musa diluída (editora Record), mencionado aqui neste
Pindorama à propósito de uma crítica que tem a ver com o tema geral desse post. Concordo com
Moutinho: o
Henrique é um poeta de primeiríssima, que vem andando pela cidade um tanto desapercebido.
Moacyr Luz e Marcelo MoutinhoMas foi
Moutinho, autor de
Somos todos iguais nesta noite (ed. Rocco), quem trouxe, para mim, a emoção, com sua refinada prosa sobre o assombro de um narrador-protagonista que vagueia por uma Cinelândia tomada pelo rito do carnaval em meio a uma viagem interna, subjetiva, densa e lírica. Texto de escritor grande, de beleza extraordinária e lírico na medida certa. Emocionante. Uma prova de que a prosa também cabe no encontro com a música. E o casamento com o som realçou o conteúdo do enredo, mas sem que a música ficasse como coadjuvante, apenas um fundo musical. A fala dos escritores obedecia à mesma estrutura jazzística dos improvisos dos instrumentos, que solam enquanto a banda mantém a base harmônica da música.
O espetáculo me lembrou um concerto de meu pai, o músico
Gaudencio Thiago de Mello, em 1978, em Oberlin, Ohio, em que ele colocava o poeta iraniano
Reza Baraheni recitando seus poemas socialistas em persa. Foi assombroso. O palco todo escuro, apenas o som do violão trazendo as melodias amazônicas do velho e, de repente, sem que ninguém esperasse, uma voz grave e densa recitava em persa a história de sua fuga do regime do xá pelo rio Safid.
Parecia um mantra. E embora ninguém entendesse o que ele dizia, a sonoridade de seu recital era tão poderosa e se encaixava tão bem no rife amazônico que o velho fazia no violão, que, quando acabou, a perplexidade foi geral. Emoção pura. Levou um tempo para que as pessoas aplaudissem, mas quando o primeiro bateu palmas, foi uma ovação interminável.
Enrica Bernardelli e Thiago de Mello
Emoção, portanto, não precisa trazer a razão ao lado dela para que a arte seja transformadora, transgressora, enfim, algo bem diverso do entretenimento. O contrário, embora também seja possível, me parece ser uma operação mais difícil de ser realizada. Uma arte que seja pura razão e raciocínio não me parece ser capaz de realizar no público essa operação transcendental, que faz com que nunca mais sejamos os mesmos depois de passar por sua experiência. E, no caso da literatura, acho que a performance, seja o recital declamatório do poeta ou a leitura casual do escritor, dá uma dimensão ao texto muito diversa do que a mera leitura é capaz de nos dar. É emocionante ver um poeta recitar. Eu mesmo li o
Grande Sertão: Veredas em voz alta, tentando dar a entonação que imaginava ser a fala do Riobaldo narrador. E foi assim que esse romance magistral se abriu para mim. Emoção.
O poeta
Thiago de Mello contou-me uma história sobre o encontro dele com
Décio Pignatari, um dos pais do Concretismo, em um jantar há alguns anos. Os dois poetas fazem trabalhos completamente distintos e, portanto, o encontro trouxe aquela dimensão de que a arte poética pode ser muito mais sempre. Foi este, mais ou menos, o diálogo, se a memória ainda me serve:
“Quero fazer uma poesia que ninguém entenda”, afirmou
Décio.
“Nem mesmo tu?”, retrucou
Thiago.
“Aí, seria a glória!”.
O quanto há de verdade nessa história não posso dizer, mas como anedota ela demarca bem uma divisão na poesia brasileira que o Concretismo como movimento demarcou, para o bem e para o mal. E
Thiago me contou essa história justamente para exemplificar sua indignação com o ataque que o movimento e as linhagens que dele descenderam (mais na imprensa paulista do que na literatura, diga-se de passagem) fazem em relação ao lirismo, tido como afetação sentimentalóide (lembrei aqui da crítica que
Renato Resende fez ao livro do
Henrique,
A musa diluída, que comentei
aqui). Na mesma conversa,
Thiago me disse:
“Paulinho, querem tirar da poesia a emoção. Eles acham que a emoção estraga o poema!”
Atacado por muita gente, o concretismo de fato inaugurou uma poesia racional, uma poesia cartesiana, do tipo penso, logo existo. O verbo como imagem, como obra plástica, que traz uma linguagem para além do contexto literário evidentemente pode emocionar, mas o faz a partir de operações cognitivas complexas, isto é, a partir do êxtase do raciocínio. Por isso, para
Décio, quanto mais difícil for o seu poema, maior será o êxtase. Minha emoção com a poesia concreta passa muito pelas coisas que o
Arnaldo Antunes faz, mas é uma onda completamente distinta da viagem que me leva o mergulho literário do enredo, em que a emoção é angustiada e incontrolável. Perto da explosão lírica de um
Neruda ou
Bandeira, por exemplo, esses poemas raciocinados são um mero prazerzinho, uma emoção contida dentro dos moldes da razão. Tento entender a mensagem, em vez de ser atravessado por ela, sem licença, sem perdão.
E é engraçado que o concretismo tenha inspirado o
Leminski, que é um poeta do sentimento, que põe fogo nas palavras e emoção em suas obras. Seu
Catatau, por exemplo, tenta buscar a razão em meio a um emaranhado de sensações. E não é à toa que o enredo do livro seja a viagem de
Descartes protegido do sol de Recife sob um coqueiro, olhando o mar depois de ter fumando uma erva misteriosa que um nativo lhe oferecera: isto é, sinto, logo existo.
Leminski, que se dizia mais concreto do que a trinca que inventou o movimento porque já nascera sob o signo dessa poesia, não fugiu nunca do lirismo, que é, na minha opinião, onde reside a força de sua poesia.

Gaudencio Thiago de Mello vive em Nova York há mais de 40 anos
Nos anos 70-80, muitos músicos de jazz e instrumentistas eruditos, que conheci e convivi (eu estudava música nesse período) aqui e em Nova York, torciam o nariz para qualquer música que tivesse uma harmonia simples. Não importava se o resultado era bom ou emocionante. Pelo contrário, quanto mais emocionante, pior. Música de qualidade tinha que ter harmonias complexas e intricadas, modulações, inversões harmônicas, melodias sinuosas etc. Dominando a linguagem da música, aprendi um idioma que me permitiu sentir um grande prazer ao perceber as manobras sutis de compositores ou intérpretes que, por exemplo, invertiam um acorde para dar à harmonia um movimento cromático, ou coisa que o valha. No início, isso inibia o meu sentido em relação às coisas mais simples, que eu confundia e categorizava como simplórias. Mas superei o preconceito e deixei meu coração se deleitar com tudo o que me emocionasse.
Meu pai, como maestro, dominava essa linguagem e eu, um dia, chamei sua atenção para as velhas melodias amazônicas de sua infância, que ele cantava quando me botava para dormir, contando as lendas da região. Sugeri que ele recuperasse essa sonoridade e assim ele fez, abrindo um filão totalmente novo e instigante na sua carreira. Melodias simples, mas de intensidade emocional altíssima.
Acho que a literatura viveu um processo semelhante e muita gente nos anos 70 e 80 torceu o nariz para o texto lírico, emocionado. Mas as novas gerações estão buscando, até por uma questão de necessidade, de novo a emoção. E é por isso que tantos movimentos poéticos têm acontecido pelo país.
O problema é que emoção é algo que varia segundo a sensibilidade de cada um e o mercado tenta empacotar tudo dentro de categorias comerciais e de consumo que ele inventa e a imprensa legitima. Para minha amiga, aquela produção toda do Projeto Mapa não chegou à sua alma. Para mim, ao contrário, foi pura emoção. E é assim que as coisas são.