domingo, 26 de agosto de 2007

Festa na Ouvidor


A rua do Ouvidor comemora o aniversário de Rodrigo prestigiando Wilson Moreira

O Rio de Janeiro tem mesmo uma vocação de rua. Nosso espírito boêmio e festeiro se dá nas esquinas, nos bares, nas praças, muito mais do que fechados nos apartamentos. Até parte das nossas celebrações mais íntimas, como um aniversário, podem se tornar eventos públicos. João Pimentel, o Janjão, por exemplo, é capaz de reunir mais 200 pessoas no seu aniversário, cujo epicentro é o botequim Cardosão, entre os quais figuras ilustres do mundo do samba e do choro. A Soraya colocou umas 100 pessoas no Bar do seu Claudio, na Lapa. Eu mesmo, modestamente, já ocupei todo o Cosmopolita e o Bar do Serafim para receber o abraço dos amigos em passado relativamente recente.


Wilson Moreira, entre os bambas, para nossa alegria

Ontem, não foi diferente. Meu compadre Rodrigo Ferrari — dono da Livraria Folha Seca, não só a mais charmosa da cidade, mas a que tem preciosidades como os discos do Chico Mário, comemorou seus 40 anos. Situada na tradicional rua do Ouvidor e cercada de botecos encravados em sobrados da época do império, a exígua loja foi a base da festa, que aproveitou o evento para fazer o lançamento do CD Peso na balança, do mestre Wilson Moreira. Conclusão: o Rio viveu um dia de carnaval, como atestam as fotos.


O grande artista Loredano (à esquerda) entrega seu presente ao Rodrigo

Para mim, pessoalmente, foi legal rever amigos que não via há muito tempo, como Marcelo Moutinho & Flá, Moacyr Luz, Flavinha, Madá e Vinícius, Paulo Pires, Marechal, Loredano, Solange e Gabriela, e tantos outros. Parabéns Rodrigo! É bom viver numa cidade onde os amigos se abraçam na rua.


Belas presenças na rua do Ouvidor, prestigiando o samba. Não resisti e pedi pra fazer o clique


Marluci, coleguinha do Dia, e Moacyr, na livraria, se concentrando pra soltar a voz


Solange e Gabriela, não as via desde o século XIV...


Moutinho e Flá, outra dupla que andava sumida


Os músicos, com destaque para o craque Pratinha, no violão de sete cordas


Na livraria, Rodrigo tinha um belo estoque de cachaças com nome e sobrenome


Panorâmica da rua do Ouvidor, olhando para a avenida Primeiro de Março

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Zé Pereira no pedaço



Amigos, há algumas semanas chegou aos bons redutos da cidade (livrarias, cinemas e botecos) a revista Zé Pereira, do meu compadre Zé José (Eduardo Souza Lima), vejam blog da revista aqui. Ele era editor-assistente no Segundo Caderno do Globo, mas, adepto do adágio: “se você quer fazer algo bem feito, faça você mesmo”, resolveu criar sua própria revista. A idéia do é trazer para o leitor o máximo possível de boas reportagens, recuperando um espaço que foi se perdendo na grande imprensa, cada vez mais submissa aos fait divers, abobrinhas e assuntos de celebridades.

Este primeiro número traz boas histórias, inclusive uma da cineasta (e mulher do ) Anna Azevedo, com um perfil da Tia Doca da Portela. O jornalista André Vieira fala sobre a Baía de Guanabara e a atriz Leandra Leal faz uma reflexão sobre ser jovem nesses tempos pós-modernos. A capa é uma birosca típica do Rio, lugar do Zé Pereira, num desenho do Jano, o cartunista francês que captou a essência da alma carioca em sua arte.



Falando em cartunista francês, também está sendo lançado um livro de quadrinhos eróticos da Aurélia Aurita, chamado Morango e Chocolate (editora Casa 21), uma espécie de Manga afrancesado, que conta a história das primeira semanas de paixão de um casal, a partir do ponto de vista da cartunista, de 25 anos. Aurita consegue misturar erotismo com uma boa dose de inocência, o que dá uma leveza extraordinária à história.


Aurélia Aurita, a autora de Morango e Chocolate

Já o Le Monde Diplomatique lançou sua edição em português. É uma boa dica para quem busca informações a partir de um ponto de vista alternativo e independente. O jornal faz um tipo de reportagem reflexiva, com um olhar crítico à globalização, e boas matérias sobre regiões do mundo que dificilmente chegam até nós pelas páginas dos jornais convencionais.

O toque triste fica por conta da censura que a Justiça da Espanha fez à revista de humor El Jueves (A quinta-feira, embora a revista saia às sextas), mandando recolher uma de suas edições porque trazia uma charge política dos príncipes espanhóis trepando.

sábado, 18 de agosto de 2007

A humanidade em construção

Amigos, depois de um longo e tenebroso inverno, eis-me de volta, com a reprodução de uma matéria minha sobre o documentário realizado pelo grande Sílvio Tendler, que foi muito amigo de Manduka, sobre o geógrafo Milton Santos, um pesonagem singular do pensamento livre, original e independente brasileiro, gente da mesma estirpe de um Gilberto Freyre, Nunes Pereira, Ariano Suassuna e Castro Farias. A edição no Globo, publicada neste sábado, na Economia, foi editada pela entrada de anúncio na página, coisa corriqueira nos jornais diários. Mas aqui, ela segue em sua versão integral. Aproveitem e vejam o filme que não deve demorar em cartaz porque não é filme de entretenimento, como diz Silvio, é para pensar.


O geógrafo Milton Santos é tema do novo documentário de Sílvio Tendler (foto de divulgação)


A humanidade em construção
Paulo Thiago de Mello

Pouco conhecido fora dos cír culos acadêmicos e da militân cia antiglobalização, o geógra fo Milton Santos chega agora ao grande público, no mais re cente documentário de Sílvio Tendler, Encontro com Milton Santos ou a globalização vista do lado de cá. O filme, muito bem realizado, é uma rara oportunidade de se conhecer as idéias de um intelectual brilhante, dono de um pensamen to original, que revolucionou geografia convencional, ao humanizá-la, estabelecendo um diálogo com outras disciplinas e adotando o ponto de vista dos países periféricos. No campo político, Santos foi um ativista independente, sem vínculos com qualquer grupo — “sou um militante de idéias” — e se tornou uma das vozes críticas da globalização que vi vemos hoje, chamada por ele de globalitarismo, uma mistura de globalização com autoritarismo.

O documentário traz a última entrevista do geógrafo, pouco antes de sua morte, em 2001, aos 75 anos, em que apresenta, com a voz mansa e o rosto risonho, suas idéias cruciais. Com essa base, Tendler foi a campo buscar exemplos e in terlocutores para estabelecer um diálogo, em que o tema central é a construção da civilização através de uma globalização solidária.

Neto de escravos, Milton Santos nasceu em 1926, em Brotos de Macaíbas, na Chapada Dia mantina (BA), e foi alfabetizado em casa, pelos pais, professores. Obteve o título de doutor em geografia na França, em 1958. Com o golpe de 64 foi obrigado a deixar o Brasil. Morou então na França, Tanzânia, Venezuela, Estados Unidos e Canadá. Escreveu 40 livros e recebeu o título doutor honoris causa de 20 universidades. A consagração de sua carreira veio com o prêmio Vautrin Lud, em 1994, uma espécie de Nobel da geografia, pela primeira vez concedido a um acadêmico fora do mundo anglo-saxão.

Crítico do globalitarismo, Santos é, no entanto, otimista quanto as transformações, que segundo ele, virão de baixo. “Creio que as condições da História atual permitem ver que uma outra realidade é possível”, diz ele do documentário. “Somos pessimistas quanto a realidade que está aí, mas otimistas quanto o que pode chegar.”

Para ele, o problema com o globalitarismo é a fragmentação da ética. “Há a ética dos poderosos, que não chega a ser ética, e há a ética dos que não têm nada”, diz ele, acrescentando que os valores desse último grupo, à exceção dos desesperados que recorrem à violência, são cada vez mais incorporados pelas camadas mais baixas da sociedade, se traduzindo em formas de ação eficazes.

O filme de Tendler traz exemplos dessas formas de ação, sobretudo de cineastas inde pendentes, que com um mínimo de tecnologia, vêm ajudando a traduzir a realidade de suas comunidades. “Estou seguro de que o período tecnológico da era do homem está terminando”, diz Santos no filme. “Estamos entrando num período que eu chamaria de demográfico... tenho medo de usar a expressão.... popular, porque isso poderia acarretar a destruição prematura da idéia”, diz ele.

A preocupação do geógrafo é pertinente, considerando-se sua concepção do globalitarismo. “Nós reclamamos dos totalitarismos, do fascismo, do nazismo. E caímos em uma outra forma de totalitarismo. Essa atual, onde nos é exigido comportamento tal e qual, onde para ser eficaz tem que se guir o mesmo modelo.” E acrescenta: “O homem deixou de ser o centro do mundo. O centro do mundo hoje é o dinheiro. E o dinheiro só é o centro do mundo por causa da geopolítica que se instalou, proposta por economistas e imposta pela mídia.”

Mas se o documentário faz um diagnóstico duro da realidade, em tom de panfleto, como admite Tendler, para quem essa é a força do filme, ele também traz a esperança de transformação e a fé na civilização, uma das fortes características de Milton Santos.

"Nunca houve humanidade. Agora que está havendo. A gente vem fazendo ensaios do que será a humanidade", diz o geógrafo. "Acho que é a primeira vez na História que convivemos com um futuro possível. Acho que essa é a grande novidade da nossa geração. A capacidade de conviver com o futuro possível."


Silvio discute o roteiro do documentário com Fernanda Montenegro, uma das narradoras

Entrevista com Sílvio Tendler

Depois de se debruçar sobre o passado recente do Brasil, através da vida de figuras his tóricas da política e da cultura do país, o cineasta Sílvio Tendler voltou suas lentes para o futuro e esmiúça, através do olhar agudo e independente do geógrafo Milton Santos, o difícil processo de construção da humanidade. O documentário Encontro com Milton Santos ou a Globalização vista do lado de cá, que entra em cartaz, depois de ter sido ovacionado no Festival de Brasília, no ano passado, traz o último depoimento do intelectual, antes de sua morte em 2001.

Depois de contar as vidas de figuras populares co mo JK e Jango, no campo político, e Castro Alves e Glauber Rocha, na área cultural, por que um documentário sobre um intelectual acadêmico?

SÍLVIO TENDLER: Eu queria um outro ponto de vista, alternativo, sobre o processo de globalização. Desde os anos 90 venho acompanhando essa questão, e sempre percebi que havia mais ruído do que informação. E aí fui ouvir o professor Milton Santos, que tinha ganho um grande prêmio internacional de geografia e que era um arauto contra essa globalização que está aí.

Em que sentido o professor Milton Santos é contra a globalização?

TENDLER: Ele não é contra a globalização. Ele não é a favor de um processo retrógrado. Ele é a favor de um avanço, mas ele é crítico do processo que está aí. Esse tipo específico de globalização. Segundo ele, nunca houve tantas condições tecnológicas para a humanidade se desenvolver, mas essas condições foram expropriadas por um grupo de empresas, que tomou para si um processo que é desejo coletivo. E ele é crítico em relação a esse processo. Então eu o ouvi e fui buscar exemplos do que ele dizia.

Na primeira apresentação do documentário, no Festival de Cinema de Brasília, em 2006, o filme foi muito aplaudido. O mesmo aconteceu na sessão de pré-estréia na quarta-feira passada. A que se deve a empatia do público com o filme?

TENDLER: Acho que o filme funcionou porque é bastante crítico. Um filme que, não te nho vergonha de dizer, é qua se um panfleto sobre o processo de globalização, que ele chama de globalitarismo: globalização com autoritarismo.

É um filme, ao contrário dos anteriores, que olha para frente, não é mesmo?

TENDLER: Estou muito feliz de ter feito esse filme porque a gente discute as questões que serão fundamentais não para o passado, mas sim para o futuro. Por exemplo, uma das questões que eu levanto no filme, e que é fundamental, é a questão da água, que será o problema dos próximos 20 anos. Em relação à água há dois processos de globalização: um deles é a água sendo explorada como um bem comum a toda a humanidade; e o outro é a água como valor de mercado, explorada na bolsa de valores no futuro, como é o petróleo hoje, como uma commodity.

E como é a estrutura do filme?

TENDLER: O Milton Santos aborda essas questões e eu dialogo com ele no filme, colocando exemplos. Ele fala dos movimentos sociais, ele diz que quem vai poder transformar a humanidade são os de baixo. Ele levanta questões muito polêmicas, porém necessárias. Ele não cria facilidades, ele cria dificuldades. São questões fundamentais na História e no desenvolvimento futuro. E, complementando ele, eu entrevistei outros intelectuais. Tem o (escritor português José) Saramago, falando de democracia; o Eduardo Galeano, sobre modelo de desen volvimento, o Aílton Krenak (líder indígena) e cineastas al ternativos, complementando o pensamento de Milton San tos. Então há uma diversidade cultural muito rica e eu acho que o filme vai levantar uma poeira necessária.

Quais as dificuldades e as expectativas em relação ao filme?

TENDLER: Não gosto de falar sobre as dificuldades, porque acho que elas fazem parte de qualquer processo criativo. Prefiro falar do desejo de que esse filme comunique. E eu estou promovendo essa distribuição eu mesmo porque hoje é muito complicado montar uma distribuição alternativa, independente. Eu toco num tema que é candente. Não é um filme balizado pela indústria do entretenimento, é um filme para discussão de idéias. E como eu fiz em 84 com o Jango, que distribuí. Também estou distribuindo o do Milton Santos.

Como você vê o Milton Santos como intelectual e ativista?

TENDLER: Acho que o Milton tem um pensamento muito particular. Vendo o filme, você verá que ele diz na abertura: "Não estou preso a nenhum grupo político, não pertenço a nenhum partido, sequer a um grupo de intelectuais. Não tenho nenhuma doutrinha, nenbuma fé, nenhuma religião. Sou um homem independente. Um outsider." Eu acho isso fundamental.