Amigos, depois de um longo e tenebroso inverno, eis-me de volta, com a reprodução de uma matéria minha sobre o documentário realizado pelo grande
Sílvio Tendler, que foi muito amigo de
Manduka, sobre o geógrafo
Milton Santos, um pesonagem singular do pensamento livre, original e independente brasileiro, gente da mesma estirpe de um
Gilberto Freyre,
Nunes Pereira,
Ariano Suassuna e
Castro Farias. A edição no
Globo, publicada neste sábado, na Economia, foi editada pela entrada de anúncio na página, coisa corriqueira nos jornais diários. Mas aqui, ela segue em sua versão integral. Aproveitem e vejam o filme que não deve demorar em cartaz porque não é filme de entretenimento, como diz
Silvio, é para pensar.
O geógrafo Milton Santos é tema do novo documentário de Sílvio Tendler (foto de divulgação)A humanidade em construçãoPaulo Thiago de Mello
Pouco conhecido fora dos cír culos acadêmicos e da militân cia antiglobalização, o geógra fo Milton Santos chega agora ao grande público, no mais re cente documentário de
Sílvio Tendler,
Encontro com Milton Santos ou a globalização vista do lado de cá. O filme, muito bem realizado, é uma rara oportunidade de se conhecer as idéias de um intelectual brilhante, dono de um pensamen to original, que revolucionou geografia convencional, ao humanizá-la, estabelecendo um diálogo com outras disciplinas e adotando o ponto de vista dos países periféricos. No campo político,
Santos foi um ativista independente, sem vínculos com qualquer grupo — “sou um militante de idéias” — e se tornou uma das vozes críticas da globalização que vi vemos hoje, chamada por ele de
globalitarismo, uma mistura de globalização com autoritarismo.
O documentário traz a última entrevista do geógrafo, pouco antes de sua morte, em 2001, aos 75 anos, em que apresenta, com a voz mansa e o rosto risonho, suas idéias cruciais. Com essa base,
Tendler foi a campo buscar exemplos e in terlocutores para estabelecer um diálogo, em que o tema central é a construção da civilização através de uma globalização solidária.
Neto de escravos,
Milton Santos nasceu em 1926, em Brotos de Macaíbas, na Chapada Dia mantina (BA), e foi alfabetizado em casa, pelos pais, professores. Obteve o título de doutor em geografia na França, em 1958. Com o golpe de 64 foi obrigado a deixar o Brasil. Morou então na França, Tanzânia, Venezuela, Estados Unidos e Canadá. Escreveu 40 livros e recebeu o título doutor
honoris causa de 20 universidades. A consagração de sua carreira veio com o prêmio
Vautrin Lud, em 1994, uma espécie de Nobel da geografia, pela primeira vez concedido a um acadêmico fora do mundo anglo-saxão.
Crítico do
globalitarismo,
Santos é, no entanto, otimista quanto as transformações, que segundo ele, virão de baixo. “Creio que as condições da História atual permitem ver que uma outra realidade é possível”, diz ele do documentário. “Somos pessimistas quanto a realidade que está aí, mas otimistas quanto o que pode chegar.”
Para ele, o problema com o
globalitarismo é a fragmentação da ética. “Há a ética dos poderosos, que não chega a ser ética, e há a ética dos que não têm nada”, diz ele, acrescentando que os valores desse último grupo, à exceção dos desesperados que recorrem à violência, são cada vez mais incorporados pelas camadas mais baixas da sociedade, se traduzindo em formas de ação eficazes.
O filme de
Tendler traz exemplos dessas formas de ação, sobretudo de cineastas inde pendentes, que com um mínimo de tecnologia, vêm ajudando a traduzir a realidade de suas comunidades. “Estou seguro de que o período tecnológico da era do homem está terminando”, diz
Santos no filme. “Estamos entrando num período que eu chamaria de demográfico... tenho medo de usar a expressão.... popular, porque isso poderia acarretar a destruição prematura da idéia”, diz ele.
A preocupação do geógrafo é pertinente, considerando-se sua concepção do
globalitarismo. “Nós reclamamos dos totalitarismos, do fascismo, do nazismo. E caímos em uma outra forma de totalitarismo. Essa atual, onde nos é exigido comportamento tal e qual, onde para ser eficaz tem que se guir o mesmo modelo.” E acrescenta: “O homem deixou de ser o centro do mundo. O centro do mundo hoje é o dinheiro. E o dinheiro só é o centro do mundo por causa da geopolítica que se instalou, proposta por economistas e imposta pela mídia.”
Mas se o documentário faz um diagnóstico duro da realidade, em tom de panfleto, como admite
Tendler, para quem essa é a força do filme, ele também traz a esperança de transformação e a fé na civilização, uma das fortes características de
Milton Santos.
"Nunca houve humanidade. Agora que está havendo. A gente vem fazendo ensaios do que será a humanidade", diz o geógrafo. "Acho que é a primeira vez na História que convivemos com um futuro possível. Acho que essa é a grande novidade da nossa geração. A capacidade de conviver com o futuro possível."
Silvio discute o roteiro do documentário com Fernanda Montenegro, uma das narradorasEntrevista com Sílvio TendlerDepois de se debruçar sobre o passado recente do Brasil, através da vida de figuras his tóricas da política e da cultura do país, o cineasta Sílvio Tendler voltou suas lentes para o futuro e esmiúça, através do olhar agudo e independente do geógrafo
Milton Santos, o difícil processo de construção da humanidade. O documentário
Encontro com Milton Santos ou a Globalização vista do lado de cá, que entra em cartaz, depois de ter sido ovacionado no Festival de Brasília, no ano passado, traz o último depoimento do intelectual, antes de sua morte em 2001.
Depois de contar as vidas de figuras populares co mo JK e Jango, no campo político, e Castro Alves e Glauber Rocha, na área cultural, por que um documentário sobre um intelectual acadêmico?SÍLVIO TENDLER: Eu queria um outro ponto de vista, alternativo, sobre o processo de globalização. Desde os anos 90 venho acompanhando essa questão, e sempre percebi que havia mais ruído do que informação. E aí fui ouvir o professor
Milton Santos, que tinha ganho um grande prêmio internacional de geografia e que era um arauto contra essa globalização que está aí.
Em que sentido o professor Milton Santos é contra a globalização?TENDLER: Ele não é contra a globalização. Ele não é a favor de um processo retrógrado. Ele é a favor de um avanço, mas ele é crítico do processo que está aí. Esse tipo específico de globalização. Segundo ele, nunca houve tantas condições tecnológicas para a humanidade se desenvolver, mas essas condições foram expropriadas por um grupo de empresas, que tomou para si um processo que é desejo coletivo. E ele é crítico em relação a esse processo. Então eu o ouvi e fui buscar exemplos do que ele dizia.
Na primeira apresentação do documentário, no Festival de Cinema de Brasília, em 2006, o filme foi muito aplaudido. O mesmo aconteceu na sessão de pré-estréia na quarta-feira passada. A que se deve a empatia do público com o filme?TENDLER: Acho que o filme funcionou porque é bastante crítico. Um filme que, não te nho vergonha de dizer, é qua se um panfleto sobre o processo de globalização, que ele chama de
globalitarismo: globalização com autoritarismo.
É um filme, ao contrário dos anteriores, que olha para frente, não é mesmo?TENDLER: Estou muito feliz de ter feito esse filme porque a gente discute as questões que serão fundamentais não para o passado, mas sim para o futuro. Por exemplo, uma das questões que eu levanto no filme, e que é fundamental, é a questão da água, que será o problema dos próximos 20 anos. Em relação à água há dois processos de globalização: um deles é a água sendo explorada como um bem comum a toda a humanidade; e o outro é a água como valor de mercado, explorada na bolsa de valores no futuro, como é o petróleo hoje, como uma
commodity.E como é a estrutura do filme?TENDLER: O
Milton Santos aborda essas questões e eu dialogo com ele no filme, colocando exemplos. Ele fala dos movimentos sociais, ele diz que quem vai poder transformar a humanidade são os de baixo. Ele levanta questões muito polêmicas, porém necessárias. Ele não cria facilidades, ele cria dificuldades. São questões fundamentais na História e no desenvolvimento futuro. E, complementando ele, eu entrevistei outros intelectuais. Tem o (escritor português
José)
Saramago, falando de democracia; o
Eduardo Galeano, sobre modelo de desen volvimento, o
Aílton Krenak (líder indígena) e cineastas al ternativos, complementando o pensamento de Milton San tos. Então há uma diversidade cultural muito rica e eu acho que o filme vai levantar uma poeira necessária.
Quais as dificuldades e as expectativas em relação ao filme?TENDLER: Não gosto de falar sobre as dificuldades, porque acho que elas fazem parte de qualquer processo criativo. Prefiro falar do desejo de que esse filme comunique. E eu estou promovendo essa distribuição eu mesmo porque hoje é muito complicado montar uma distribuição alternativa, independente. Eu toco num tema que é candente. Não é um filme balizado pela indústria do entretenimento, é um filme para discussão de idéias. E como eu fiz em 84 com o
Jango, que distribuí. Também estou distribuindo o do
Milton Santos.
Como você vê o Milton Santos como intelectual e ativista?TENDLER: Acho que o
Milton tem um pensamento muito particular. Vendo o filme, você verá que ele diz na abertura: "Não estou preso a nenhum grupo político, não pertenço a nenhum partido, sequer a um grupo de intelectuais. Não tenho nenhuma doutrinha, nenbuma fé, nenhuma religião. Sou um homem independente. Um
outsider." Eu acho isso fundamental.