quarta-feira, 25 de julho de 2007

O espírito da cidade

Entrou em cartaz o filme Paris, eu te amo. São vários diretores, inclusive Waltinho Salles, apresentando 21 curtas de cinco minutos sobre a cidade, que é símbolo dos ideais republicanos e do iluminismo. Tem de tudo para todos os gostos. Mas, para mim, o último episódio é de uma beleza poética genial. Trata-se de uma turista americana, vivida por Margo Martindale, típica dona-de-casa, meio gordinha, que não é mais jovem, mas ainda não é velha, que leva uma vida mais-ou-menos num dos subúrbios burgueses dos Estados Unidos. Ela estuda francês, provavelmente para matar o tempo, e decide conhecer Paris para exercitar o idioma. Narrado na primeira pessoa num francês com o sotaque grotesco que os americanos dão ao idioma, o episódio vai mostrando a lenta transição de uma turista numa viajante. Em que ponto, na solidão da viagem, a gente entra na cidade que nos acolhe? Não vou contar como isso ocorre no filme, para não estragar a surpresa. Mas esse curta, que é o último do filme, é de extrema sensibilidade.


Margo, numa foto de divulgação do filme, caminha por Paris, ainda turista

Como dizia Robert Ezra Park, uma cidade não é apenas um aglomerado de ruas e bairros, um projeto arquitetônico e administrativo, mas sim um espírito urbano que não se deixa conhecer assim, de primeira. O turista (e também o morador alienado e insensível) que vai do aeroporto ao hotel, ao museu, ao shopping e de volta ao aeroporto, esquivando-se das esquinas onde vivem as pessoas, terá uma visão superficial e caricata do lugar. Mas a coisa é ainda mais sutil do que ir aos lugares onde estão os nativos. É preciso deixar a cidade entrar na nossa alma. Esperar que ela abra suas ruas para nós. Respirar numa esquina, sentar num parque, olhar o mar ou o rio, subir o morro ou entrar num bar. E, de repente, a gente passa a entender tudo. Num estalo. O que é aquele lugar, o que são aquelas pessoas. Solidões citadinas, cosmopolitas, se encontram nesse momento em que o turista se transforma em viajante e desaparece na multidão de qualquer esquina do mundo urbano.


Raquel, de batom, no seu táxi, com a wonder-woman pendurada no retrovisor

As personagens da cidade são verdadeiros tesouros. Alguns terríveis e assombrosos. Outros encantadores, seres de luz, como a doce Raquel Barros, motorista de táxi, que por acaso peguei outro dia, no Centro do Rio. Pedi a ela para fazer um retrato quando chegamos ao fim da corrida, em frente ao jornal. Ela sorriu e me disse:

— Deixa então eu passar o meu batom preferido.

Anos atrás, fiz uma foto dos telhados de Paris, através da janela da casa onde estava, na Rue de Turenne, perto da Bastilha. Aqueles telhados, no meio do inverno, fazem parte da Paris que se abriu para mim, num momento em que minha solidão se encontrou com a solidão da cidade. A condição estrangeira para se viver a experiência urbana. Assim, não são apenas telhados, com suas antenas de TV, que de resto existem em qualquer cidade, mas uma ambiência que envolve a arquitetura, o som, a luz... e as pessoas que ali estão.


Os telhados de Paris, visto do velho studio da Rue de Turenne: duras lições de solidão

Aqui, sinto isso em vários momentos. Quando dobro uma esquina qualquer de Copacabana, oprimido pelo tamanho dos arranha-céus, ou quando contorno o Pão de Açúcar pela pista Cláudio Coutinho, num dia de semana, quando o lugar está vazio, e ouço o mar batendo nas pedras. Quando peço uma cerveja gelada no Bar do Costa, em Vila Isabel, no calor abafado da noite, ou um chope no Bracarense, em pleno Leblon, no meio da tarde, vendo o povo chegar da praia.

domingo, 8 de julho de 2007

A volta do capitão Ulisses



Amiga do peito: Enquanto escrevo essas linhas, uma estranha substância percorre minhas veias, deslocando o foco do mundo para um eixo desconhecido. Um ângulo inédito que me permite vislumbrar novos horizontes e gritar: Terra à vista! A pequeníssima pílula se dissolve em microscópicos seres que seguem labirintos azuis sob minha pele rumo ao cerebelo, onde desembocam com suas oferendas, evocando deuses e conjurando sortilégios de torpor e preguiça. E é assim, querida amiga, que escrevo estas linhas pra você, enquanto espero uma profunda paz química.



Ergo os olhos, e, como sempre, me vejo diante de livros. Só que entre mim e eles há uma vitrine, aquário em que afogo minha viagem pelo universo. Para além do limite físico, sua transparência é uma barreira simbólica, expressão concreta de minha presente indigência. Mas rebato, impertinente, o olhar dos livros, em sua imóvel passividade. Lá está João, empedrado no silêncio do sertão; ao seu lado, Nelson, na cidade intuída. Deixo-os de lado e me volto pra você, com uma caneta macia e meu caderno de campo, neste café à entrada do cinema.



Teu rosto, querida amiga, também tem firmeza e me resgata da insolvência. À medida que deixo essas palavras escorrerem nas folhas de boa gramatura, percebo melhor a expressão que sempre acompanhou você, não importa os nomes que usou, os corpos que vestiu. Reconheço a mesma alma ancestral na face de quem agora sopra palavras em meu ouvido neste delírio induzido. Elas me chegam impregnadas com o aroma do café que bebo lentamente, seu nome está na fumaça, no sabor... Sorvo você mais uma vez nesta ante-sala de cinema.



E, de repente, me vejo no inverno de Paris, na esquina onde nos despedimos para sempre. Pouco antes, num bistrot enfumaçado, o raro colar nambiquara, que você me dera como símbolo de nosso amor, rompeu-se sozinho, em suas cinco voltas em torno de meu pescoço. Enquanto tentava reatá-lo, você declarou simplesmente: “Ça marche pas!”. Também a vejo naquele ônibus, quando seu nome era outro e gritava comigo num surto de raiva, até que desci e você seguiu a viagem, sem olhar para trás. Nunca mais a vi naquela encarnação. Foram tantos os lugares onde deixei você escapar: no botequim da esquina; nas colinas da Nicarágua sandinista; em meio ao barulho do metrô de Manhattam; na lágrima que não vi escorrer de seus olhos, ouvindo aquele pianista cego; nos mergulhos atrás de seus náufragos no mar transparente de Cuba; nos aeroportos de todos os continentes, onde um de nós sempre embarcou sozinho... Até mesmo dormindo ao meu lado, seu corpo aconchegado ao meu abraço, a vi partir de uma vez por todas.



Com o tempo, querida amiga, a ferida deixou de doer. Fiz da tristeza uma pele e perdi a sensibilidade. Fiquei com sono e me deitei sobre a vida, roncando alto, terroso e coberto por musgos. Mas, hoje, entorpecido pelo pequeno veneno que tomo pela primeira vez, deixo o xamã vasculhar a alma selvagem com sua aguda sensibilidade. Ele expõe em pequenas doses a peçonha pré-histórica que trago no peito, enquanto danço o ritual do fogo alquímico na pajelança sobre o divã.



E assim chego aqui, cara amiga, renascendo no novo milênio, neste dia em que o dia veio vestido de um céu de sol azul, em pleno inverno do efeito estufa. No langor químico, observo com nitidez a solidão, gorda, quase obesa. Sentada no sofá da sala, ela me encara com olhos vorazes e um sorriso cheio de dentes podres, mastigando incessantemente. É espaçosa, ocupando cada vez mais minha casa e, como quem não quer nada, cínica, pergunta sempre por você, minha menina perdida. “Onde estará?”. Mas agora encaro a dona gorda nos olhos vazios. Não mais me empedro como João, a alma solta no sertão; ou sequer revelo tudo da forma mais crua, como Nelson, o espírito da rua.



No milênio que traz a idéia de fim, já assisti a todos os filmes. E nessa sala de cinema gelada, deixo a sua poltrona vazia no escuro. Que a gorda voraz se entretenha sozinha com a ilusão que vai na tela. De minha parte, busco o ar fresco aqui fora, onde sinto você por perto... Quem sabe ao dobrar a esquina não nos esbarramos. Sempre fui teu capitão Ulisses, amiga rainha. Amei-a suavemente, descobrindo seus segredos; mas também saltei sobre você como o tigre, devorando suas carnes, sorvendo seu sangue.



E agora retorno de minha Odisséia para que você também possa me reconhecer.

domingo, 1 de julho de 2007

Diário de um CTI


Desculpem o surto narcisista desse auto-retrato, mas é que fiz essa foto ao chegar em casa após toda essa odisséia: cara de assustado, mas ainda vivo...

Amigos, salve! salve!

Normalmente faço meus post em Pindorama semanalmente, tentando manter uma periodicidade para que meus 10 leitores possam viajar comigo nessas crônicas amadoras. Ocorre que na semana passada, tive um probleminha de saúde e fiquei afastado do computador. Resolvi então reproduzir o e-mail que enviei aos meus amigos. para que vocês possam compreender os motivos de ausência tão prolongada:

Já há algum tempo venho sentindo meu coração bater de forma descompassada — e, talvez por isso, minhas histórias afetivas tenham todas um certo viés oblíquo e nebuloso, mas isso é outro assunto. Ocorre que na última sexta-feira (dia 22), ao chegar ao jornal, esse descompasso estava mais evidente do que o usual, de modo que me dirigi ao serviço médico do Globo, onde a doutora de plantão constatou uma arritmia, ou seja, meu batimento cardíaco estava atravessando o samba, por assim dizer. Ela me disse, então, que provavelmente não era nada de mais grave, mas que, por regra de conduta, era obrigada a me encaminhar a um hospital para verificar mais a fundo a razão daquela cadência irregular; e mais: que eu fosse acompanhado por alguém, para a eventualidade de aquela ziquezira se transformar num pirepaque. Todas essas medidas, e um certo ar alarmado da médica, evidentemente anularam o efeito tranqüilizador de suas palavras iniciais, de que tudo provavelmente não seria nada de mais grave. E, assim, a arritmia ganhou uma ressonância ainda maior e passei a ouvir meu coração ecoando dentro da cabeça. Um carnaval, meus amigos.

Bem, fomos eu e uma colega da redação, Ana Paula Baltazar (igualmente com o ar alarmado), para o Hospital Espanhol, uma velha casa de saúde, cercada de frondosas árvores na Rua do Riachuelo, relativamente perto do Globo, levados por um carro do jornal. Na sala de emergência, aonde cheguei após uma burocracia inicial que me pareceu interminável, mas que de fato durou apenas alguns minutos, imediatamente tiraram minhas roupas, vestindo-me com aquele avental de doente, que te deixa humilhado com o busanfã de la patrie a descoberto e me colocaram deitado numa cama. Comecei a me sentir doente naquele instante e considerar se, quem sabe, eu saísse dali não me sentiria melhor. Mas agüentei firme. Em seguida, espetaram minha mão para colocar soro e outros medicamentos, me deram uma máscara de oxigênio e plugaram meu peito com fios ligados a uma máquina, que desenha num monitor uma espécie de curva estatística do batimento cardíaco (se fosse o mercado de ações, os analistas diriam que o dia estava de fortes oscilações na bolsa), acompanhada de um bip intermitente (aquele bip que, nos filmes, passa a ser um longo apito, quando o paciente falece).

Cada procedimento me assombrava, sobretudo a máscara de oxigênio, pois estava respirando perfeitamente bem e não via sentido em pôr aquele trambolho inconveniente no rosto, embaçando meus óculos e tornando mais turva a situação. São normas, me disseram. Fiz exame de sangue, tirei raios-x do peito e fiz eletrocardiograma. Tudo isso deitado. Mais uma vez constatou-se a arritmia, mas descartaram um quadro de enfarte. Especularam que a razão daquele batimento irregular, provavelmente, se devia ao estresse, o que me pareceu bastante verossímil, considerando o ritmo de minha vida nas últimas semanas.

Após uma breve confabulação entre os médicos da emergência (um queria me liberar e a outra apontou para o monitor, mostrando o desenho irregular que se sucedia em meio aos bips), acabei sendo enviado para o CTI. Me avisaram então que ficaria ali 24 horas para uma avaliação mais detalhada e que não me preocupasse, pois apesar de estar sendo encaminhado para o temível CTI, cuja menção das sílabas é suficiente para encher de terror até os mais bravos, no meu caso era apenas para uma avaliação. Pensei: fico aqui 24 horas, saio no sábado à tarde, sabendo o que aconteceu e medicado, e vou cuidar da vida.

Chamaram então o maqueiro e descobri que, a partir do momento em que você é classificado como um paciente de CTI, já não pode mais caminhar livremente. Fui, então, sendo levado de maca para o temível sexto andar do Hospital. Esse passeio já é desorientador por si só, pois só nos resta observar o teto dos corredores, do elevador, pensando que para sair daquela situação, basta pular da maca e sair correndo porta afora... até que, finalmente, chega-se ao leito do CTI, no meu caso, o de número 18. Os leitos são separados por cortinas, o que nos coloca lado a lado de outros pacientes, a maioria deles inconsciente.

Havia um senhor, chamado Silvio, que estava ao alcance do meu campo de visão e que, com exceção de alguns movimentos com a boca e a cabeça, permanecia o tempo todo imóvel. Mas estava consciente, pois os enfermeiros conversavam com ele toda vez que precisavam banhá-lo, alimentá-lo ou medicá-lo. Obviamente, aquela situação me angustiou, mas a zona que os enfermeiros, auxiliares de enfermagens e técnicos faziam ajudaram a aliviar a tensão do momento. Eram todos muito engraçados e bastante profissionais. Lembro-me especialmente de Ana Carolina, uma negra de 20 e poucos, com lentes de contato azuis e uma inteligência agudíssima. Posso garantir, meus amigos, que esses profissionais chegam muito mais perto dos pacientes do que os médicos. Se bem que os dois que me atenderam no CTI também foram de extrema competência e cordialidade.

Comparado a meus colegas de CTI eu estava ótimo. Absolutamente consciente, conversava com o pessoal que me atendia, facilitando ao máximo os procedimentos. Mas me recusei a vestir fraudas, uma precaução quase sempre necessária, pois não se pode simplesmente sair da cama para ir, digamos, ao banheiro, tantos são os fios plugados ou espetados em você. Para fazer xixi, usei um aparelho chamado pato, uma bacia de metal, com uma boca, que se assemelha ao corpo de um pato sem cabeça. Basta virar de lado na cama, introduzir (êpa!) o portentoso membro e deixar fluir. O alívio é indescritível. No início é difícil, mas depois a coisa rola mais facilmente. Já o número dois, simplesmente não rolou. Travei nessa área. Afinal, o que é um dia ou dois de privação, não é mesmo?

A coisa pegou quando soube que teria que ficar mais um dia em observação porque um dos exames de sangue mostrou uma pequena alteração em uma enzima. Tive que me preparar para mais 24 horas ali. Por sorte, conseguira convencer um dos atendentes a me deixar ficar com o pequeno aparelho MP3 (pois os pacientes não podem ficar com absolutamente nada no CTI), onde gravara quase um giga de música. Isso ajudou o tempo a passar. Sem falar que dormi muito (acho que colocaram algum calmante com o soro).

No domingo à noite, me baixaram do CTI para um quarto com TV, onde tive um dos sonos mais profundos dos últimos anos. Enfim, na segunda-feira, no começo da noite, pouco mais de 72 horas de minha chegada ao Hospital, foi liberado. Saí dali e precisei caminhar pela calçada da agitada e poluída rua do Riachuelo, sentindo o estranho prazer de estar vivo, de ter conseguido entrar e sair daquele complexo universo chamado hospital.

Bem, amigos, tudo não passou de um susto. Continuo com palpitações e cheio de remédios, mas já fui a uma cardiologista bem recomendada, que me disse que essa arritmia é "do bem". Vou fazer mais alguns exames, mas já estou de volta à ativa.