Desculpem o surto narcisista desse auto-retrato, mas é que fiz essa foto ao chegar em casa após toda essa odisséia: cara de assustado, mas ainda vivo...Amigos, salve! salve!
Normalmente faço meus post em
Pindorama semanalmente, tentando manter uma periodicidade para que meus 10 leitores possam viajar comigo nessas crônicas amadoras. Ocorre que na semana passada, tive um probleminha de saúde e fiquei afastado do computador. Resolvi então reproduzir o e-mail que enviei aos meus amigos. para que vocês possam compreender os motivos de ausência tão prolongada:
Já há algum tempo venho sentindo meu coração bater de forma descompassada — e, talvez por isso, minhas histórias afetivas tenham todas um certo viés oblíquo e nebuloso, mas isso é outro assunto. Ocorre que na última sexta-feira (dia 22), ao chegar ao jornal, esse descompasso estava mais evidente do que o usual, de modo que me dirigi ao serviço médico do
Globo, onde a doutora de plantão constatou uma arritmia, ou seja, meu batimento cardíaco estava atravessando o samba, por assim dizer. Ela me disse, então, que provavelmente não era nada de mais grave, mas que, por regra de conduta, era obrigada a me encaminhar a um hospital para verificar mais a fundo a razão daquela cadência irregular; e mais: que eu fosse acompanhado por alguém, para a eventualidade de aquela ziquezira se transformar num pirepaque. Todas essas medidas, e um certo ar alarmado da médica, evidentemente anularam o efeito tranqüilizador de suas palavras iniciais, de que tudo provavelmente não seria nada de mais grave. E, assim, a arritmia ganhou uma ressonância ainda maior e passei a ouvir meu coração ecoando dentro da cabeça. Um carnaval, meus amigos.
Bem, fomos eu e uma colega da redação,
Ana Paula Baltazar (igualmente com o ar alarmado), para o
Hospital Espanhol, uma velha casa de saúde, cercada de frondosas árvores na Rua do Riachuelo, relativamente perto do
Globo, levados por um carro do jornal. Na sala de emergência, aonde cheguei após uma burocracia inicial que me pareceu interminável, mas que de fato durou apenas alguns minutos, imediatamente tiraram minhas roupas, vestindo-me com aquele avental de doente, que te deixa humilhado com o
busanfã de la patrie a descoberto e me colocaram deitado numa cama. Comecei a me sentir doente naquele instante e considerar se, quem sabe, eu saísse dali não me sentiria melhor. Mas agüentei firme. Em seguida, espetaram minha mão para colocar soro e outros medicamentos, me deram uma máscara de oxigênio e plugaram meu peito com fios ligados a uma máquina, que desenha num monitor uma espécie de curva estatística do batimento cardíaco (se fosse o mercado de ações, os analistas diriam que o dia estava de fortes oscilações na bolsa), acompanhada de um bip intermitente (aquele bip que, nos filmes, passa a ser um longo apito, quando o paciente falece).
Cada procedimento me assombrava, sobretudo a máscara de oxigênio, pois estava respirando perfeitamente bem e não via sentido em pôr aquele trambolho inconveniente no rosto, embaçando meus óculos e tornando mais turva a situação. São normas, me disseram. Fiz exame de sangue, tirei raios-x do peito e fiz eletrocardiograma. Tudo isso deitado. Mais uma vez constatou-se a arritmia, mas descartaram um quadro de enfarte. Especularam que a razão daquele batimento irregular, provavelmente, se devia ao estresse, o que me pareceu bastante verossímil, considerando o ritmo de minha vida nas últimas semanas.
Após uma breve confabulação entre os médicos da emergência (um queria me liberar e a outra apontou para o monitor, mostrando o desenho irregular que se sucedia em meio aos bips), acabei sendo enviado para o CTI. Me avisaram então que ficaria ali 24 horas para uma avaliação mais detalhada e que não me preocupasse, pois apesar de estar sendo encaminhado para o temível CTI, cuja menção das sílabas é suficiente para encher de terror até os mais bravos, no meu caso era apenas para uma avaliação. Pensei: fico aqui 24 horas, saio no sábado à tarde, sabendo o que aconteceu e medicado, e vou cuidar da vida.
Chamaram então o maqueiro e descobri que, a partir do momento em que você é classificado como um paciente de CTI, já não pode mais caminhar livremente. Fui, então, sendo levado de maca para o temível sexto andar do Hospital. Esse passeio já é desorientador por si só, pois só nos resta observar o teto dos corredores, do elevador, pensando que para sair daquela situação, basta pular da maca e sair correndo porta afora... até que, finalmente, chega-se ao leito do CTI, no meu caso, o de número 18. Os leitos são separados por cortinas, o que nos coloca lado a lado de outros pacientes, a maioria deles inconsciente.
Havia um senhor, chamado
Silvio, que estava ao alcance do meu campo de visão e que, com exceção de alguns movimentos com a boca e a cabeça, permanecia o tempo todo imóvel. Mas estava consciente, pois os enfermeiros conversavam com ele toda vez que precisavam banhá-lo, alimentá-lo ou medicá-lo. Obviamente, aquela situação me angustiou, mas a zona que os enfermeiros, auxiliares de enfermagens e técnicos faziam ajudaram a aliviar a tensão do momento. Eram todos muito engraçados e bastante profissionais. Lembro-me especialmente de
Ana Carolina, uma negra de 20 e poucos, com lentes de contato azuis e uma inteligência agudíssima. Posso garantir, meus amigos, que esses profissionais chegam muito mais perto dos pacientes do que os médicos. Se bem que os dois que me atenderam no CTI também foram de extrema competência e cordialidade.
Comparado a meus colegas de CTI eu estava ótimo. Absolutamente consciente, conversava com o pessoal que me atendia, facilitando ao máximo os procedimentos. Mas me recusei a vestir fraudas, uma precaução quase sempre necessária, pois não se pode simplesmente sair da cama para ir, digamos, ao banheiro, tantos são os fios plugados ou espetados em você. Para fazer xixi, usei um aparelho chamado
pato, uma bacia de metal, com uma boca, que se assemelha ao corpo de um pato sem cabeça. Basta virar de lado na cama, introduzir (êpa!) o portentoso membro e deixar fluir. O alívio é indescritível. No início é difícil, mas depois a coisa rola mais facilmente. Já o número dois, simplesmente não rolou. Travei nessa área. Afinal, o que é um dia ou dois de privação, não é mesmo?
A coisa pegou quando soube que teria que ficar mais um dia em observação porque um dos exames de sangue mostrou uma pequena alteração em uma enzima. Tive que me preparar para mais 24 horas ali. Por sorte, conseguira convencer um dos atendentes a me deixar ficar com o pequeno aparelho MP3 (pois os pacientes não podem ficar com absolutamente nada no CTI), onde gravara quase um giga de música. Isso ajudou o tempo a passar. Sem falar que dormi muito (acho que colocaram algum calmante com o soro).
No domingo à noite, me baixaram do CTI para um quarto com TV, onde tive um dos sonos mais profundos dos últimos anos. Enfim, na segunda-feira, no começo da noite, pouco mais de 72 horas de minha chegada ao Hospital, foi liberado. Saí dali e precisei caminhar pela calçada da agitada e poluída rua do Riachuelo, sentindo o estranho prazer de estar vivo, de ter conseguido entrar e sair daquele complexo universo chamado hospital.
Bem, amigos, tudo não passou de um susto. Continuo com palpitações e cheio de remédios, mas já fui a uma cardiologista bem recomendada, que me disse que essa arritmia é "do bem". Vou fazer mais alguns exames, mas já estou de volta à ativa.