Os tetos de Paris vistos da janela de um apartamento perto da Place des VosgesToda quinta-feira dou aula na
UFF, na pós-graduação de antropologia. É um dia cheio e bastante corrido, pois para chegar às 10h em Niterói tenho que acordar às 7h30. Dou aula até 1 da tarde, almoço perto da universidade e venho correndo para o Rio, onde entro no jornal às 3 da tarde. Embarco então numa nova jornada de trabalho que, na melhor das hipóteses, só acaba lá pelas 10 e meia da noite. Nesse corre-corre, o único momento em que relaxo é quando entro na barca para fazer a travessia de Nikiti para o Rio. Afinal, por mais apressado que esteja, lá dentro sou prisioneiro do singrar langoroso dessas exuberantes embarcações, orgulho do racionalismo metropolitano, que cruzam a Baía de Guanabara, unindo as duas cidades.

O rio Sena visto da Île de la Cité
Assim, o momento da barca é, para mim, um deslocamento não apenas físico, mas igualmente uma travessia num sentido simbólico, à medida que o torpor da viagem me leva para os labirintos subjetivos de minha mente. Mergulho num fazer que, em mim, é constante: misturar memória e desejo, como sugeriu
T. S. Eliot. Essa viagem cotidiana traz a mesma sensação que sinto quando vou ao cinema: a gente entra, se acomoda na poltrona e, no escuro, espera o filme começar, entre um misto de ansiedade pelo que está por vir e de relaxamento, por termos consciência de que, pelo menos momentaneamente, o mundo corrido da cidade ficou lá fora.

Uma das paisagens clássicas de Paris durante o inverno: melancolia e euforia
Nessa semana mesmo, atravessando a Baía de Guanabara na barca, ouvia num tocador de música digital que ganhei de presente, a trilha sonora que o compositor
Yann Tiersen fez para
O fabuloso destino de Amélie Poulain. O filme foi dirigido por
Jean-Pierre Jeunet, o mesmo que fez
Delicatessen, e traz no elenco, entre outros,
Audrey Tautou, como
Amélie, e o genial S
erge Merlin, como o vizinho que acaba fazendo por ela o que ela faz pelos outros: amarrar destinos amorosos, que estavam perdidos no meio urbano.

Audrey Tautou (foto de divulgação tirada da internet) que encarnou Amélie Poulain
Ouvindo a trilha de
Tiersen reparei que, excluindo músicas incidentais de outros compositores, as suas composições eram quase todas valsas (o que combinava muito bem com o balançar da barca provocado por marolas do mar encrespado) e, de repente, me dei conta do perfeito casamento da trilha sonora com o filme, pois a narrativa de
Amélie Poulain é toda estruturada no marcante andamento três por quatro e suas variantes. O enredo é uma valsa, no dois-pra-lá-dois-pra-cá em que casais estão à espera de uma intervenção do destino para uni-los no
pas de deux da vida.

Othon Bastos no clássico de Glauber Rocha, Deus e o diabo na terra do Sol: sertão (foto de divulgação baixada da internet)
Além disso, as valsas clássicas misturam em doses iguais melancolia e euforia, no contraste entre o ritmo forte, que nos faz querer dançar, e as melodias e harmonias quase sempre taciturnas e até sombrias. Na minha opinião, essa mescla poderosa é marca do cotidiano jacobino francês, sobretudo em Paris, onde a experiência da República se insinua sobre todos os indivíduos de forma suave e permanente (diferentemente da imposição da noção de democracia americana que vivenciei no dia-a-dia de Nova York, quando por lá morei). O interessante de
Amélie e do personagem de
Merlin, que é o verdadeiro manipulador dos destinos fabulosos de todos os caricatos personagens do filme, inclusive o de
Amélie, é a construção da felicidade amorosa, através de pequenas manipulações do cotidiano, que vão abrindo as caixinhas solitárias desses cidadãos submersos no universo da cidade.

Praça São Pedro, em Recife: o barroco brasileiro
No Brasil, as coisas são de outra ordem. Ainda estou duplamente impactado pela passagem de
Ariano Suassuna pelo Rio, durante as comemorações de seus 80 anos. Fiquei emocionado pela oportunidade de ter podido conversar com ele por alguns minutos, enquanto escrevia uma breve dedicatória para mim em seu livro sobre filosofia da arte. O segundo impacto veio ao assistir a excelente adaptação que o diretor
Luiz Fernando Carvalho fez do
Romance d’A pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, de
Suassuna, para minissérie da televisão. Se
Amélie é uma valsa urbana, a adaptação de
Carvalho é uma alegoria com todas as implicações do sertão barroco e armorial e seus personagens simultaneamente bufões e fidalgos, em suas cavalhadas combatendo mouros e infiéis imaginados.
Mercado popular de Paris, o Marché D'Aligre, num domingo
A vitalidade de
Pindorama corre de forma espetacular no sangue do sertão. O que em nós é muçulmano, judeu, ibérico e mediterrâneo aparece sem disfarces por ali. Lá é o campo aberto e sem limites, ao contrário da cidade de
Amélie, ou mesmo da solidão apertada de Copacabana que aparece no
Edifício Master, de
Eduardo Coutinho. No sertão, tudo pode acontecer, pois viver é muito perigoso, com diz
Tatarana, o jagunço
Riobaldo, no
Grande Sertão de
Guimarães Rosa.
Mercado no Centro velho de Recife: outro tipo de valsa