sábado, 16 de junho de 2007

A fabulosa vitalidade de Pindorama


Os tetos de Paris vistos da janela de um apartamento perto da Place des Vosges

Toda quinta-feira dou aula na UFF, na pós-graduação de antropologia. É um dia cheio e bastante corrido, pois para chegar às 10h em Niterói tenho que acordar às 7h30. Dou aula até 1 da tarde, almoço perto da universidade e venho correndo para o Rio, onde entro no jornal às 3 da tarde. Embarco então numa nova jornada de trabalho que, na melhor das hipóteses, só acaba lá pelas 10 e meia da noite. Nesse corre-corre, o único momento em que relaxo é quando entro na barca para fazer a travessia de Nikiti para o Rio. Afinal, por mais apressado que esteja, lá dentro sou prisioneiro do singrar langoroso dessas exuberantes embarcações, orgulho do racionalismo metropolitano, que cruzam a Baía de Guanabara, unindo as duas cidades.


O rio Sena visto da Île de la Cité

Assim, o momento da barca é, para mim, um deslocamento não apenas físico, mas igualmente uma travessia num sentido simbólico, à medida que o torpor da viagem me leva para os labirintos subjetivos de minha mente. Mergulho num fazer que, em mim, é constante: misturar memória e desejo, como sugeriu T. S. Eliot. Essa viagem cotidiana traz a mesma sensação que sinto quando vou ao cinema: a gente entra, se acomoda na poltrona e, no escuro, espera o filme começar, entre um misto de ansiedade pelo que está por vir e de relaxamento, por termos consciência de que, pelo menos momentaneamente, o mundo corrido da cidade ficou lá fora.


Uma das paisagens clássicas de Paris durante o inverno: melancolia e euforia

Nessa semana mesmo, atravessando a Baía de Guanabara na barca, ouvia num tocador de música digital que ganhei de presente, a trilha sonora que o compositor Yann Tiersen fez para O fabuloso destino de Amélie Poulain. O filme foi dirigido por Jean-Pierre Jeunet, o mesmo que fez Delicatessen, e traz no elenco, entre outros, Audrey Tautou, como Amélie, e o genial Serge Merlin, como o vizinho que acaba fazendo por ela o que ela faz pelos outros: amarrar destinos amorosos, que estavam perdidos no meio urbano.


Audrey Tautou (foto de divulgação tirada da internet) que encarnou Amélie Poulain

Ouvindo a trilha de Tiersen reparei que, excluindo músicas incidentais de outros compositores, as suas composições eram quase todas valsas (o que combinava muito bem com o balançar da barca provocado por marolas do mar encrespado) e, de repente, me dei conta do perfeito casamento da trilha sonora com o filme, pois a narrativa de Amélie Poulain é toda estruturada no marcante andamento três por quatro e suas variantes. O enredo é uma valsa, no dois-pra-lá-dois-pra-cá em que casais estão à espera de uma intervenção do destino para uni-los no pas de deux da vida.


Othon Bastos no clássico de Glauber Rocha, Deus e o diabo na terra do Sol: sertão (foto de divulgação baixada da internet)

Além disso, as valsas clássicas misturam em doses iguais melancolia e euforia, no contraste entre o ritmo forte, que nos faz querer dançar, e as melodias e harmonias quase sempre taciturnas e até sombrias. Na minha opinião, essa mescla poderosa é marca do cotidiano jacobino francês, sobretudo em Paris, onde a experiência da República se insinua sobre todos os indivíduos de forma suave e permanente (diferentemente da imposição da noção de democracia americana que vivenciei no dia-a-dia de Nova York, quando por lá morei). O interessante de Amélie e do personagem de Merlin, que é o verdadeiro manipulador dos destinos fabulosos de todos os caricatos personagens do filme, inclusive o de Amélie, é a construção da felicidade amorosa, através de pequenas manipulações do cotidiano, que vão abrindo as caixinhas solitárias desses cidadãos submersos no universo da cidade.


Praça São Pedro, em Recife: o barroco brasileiro

No Brasil, as coisas são de outra ordem. Ainda estou duplamente impactado pela passagem de Ariano Suassuna pelo Rio, durante as comemorações de seus 80 anos. Fiquei emocionado pela oportunidade de ter podido conversar com ele por alguns minutos, enquanto escrevia uma breve dedicatória para mim em seu livro sobre filosofia da arte. O segundo impacto veio ao assistir a excelente adaptação que o diretor Luiz Fernando Carvalho fez do Romance d’A pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, de Suassuna, para minissérie da televisão. Se Amélie é uma valsa urbana, a adaptação de Carvalho é uma alegoria com todas as implicações do sertão barroco e armorial e seus personagens simultaneamente bufões e fidalgos, em suas cavalhadas combatendo mouros e infiéis imaginados.


Mercado popular de Paris, o Marché D'Aligre, num domingo

A vitalidade de Pindorama corre de forma espetacular no sangue do sertão. O que em nós é muçulmano, judeu, ibérico e mediterrâneo aparece sem disfarces por ali. Lá é o campo aberto e sem limites, ao contrário da cidade de Amélie, ou mesmo da solidão apertada de Copacabana que aparece no Edifício Master, de Eduardo Coutinho. No sertão, tudo pode acontecer, pois viver é muito perigoso, com diz Tatarana, o jagunço Riobaldo, no Grande Sertão de Guimarães Rosa.


Mercado no Centro velho de Recife: outro tipo de valsa

domingo, 10 de junho de 2007

Crônica de uma biografia anunciada


Capa do disco de Manduka com Geraldo Vandré, gravado no Chile de Allende, em 1972

Rogério Duarte
, o artista responsável pelos traços psicodélicos das capas dos discos tropicalistas e dos cartazes de filmes do Cinema Novo, ouviu de Glauber Rocha, no timbre dramático de seu estilo, o seguinte conselho: “Inventaria-te antes que os outros te transformem num mal-entendido”. Com isso na cabeça, Rogério pôs no papel relatos memorialísticos que compõem uma espécie de fragmento de autobiografia lançada recentemente pela excelente editora paulista Azougue, sob o comando editorial de Sergio Cohn.

Inicialmente militante de esquerda (preso e torturado na ditadura), Rogério foi desenvolvendo um estilo próprio que o transformou num dos grandes artistas do grafismo brasileiro. Mais um baiano no grupo de baianos que sacudiu o país ao longo dos anos 60 e 70, ele percorreu os labirintos do tropicalismo, do Cinema Novo e, en passant, do concretismo, se incorporando à contracultura brasileira, ao lado de figuras como Torquato Neto, Waly Salomão, José Carlos Capinam, Jards Macalé, entre outros.


Manduka e sua ex-mulher Enrica Bernardelli, no Rio, em 1980

O alerta de Glauber é mais do que apropriado, sobretudo nestes tempos de pulverização pós-moderna, pois dependendo do grau de loucura que se tenha, do pavilhão em que se encontre internado no manicômio da vida cotidiana, o mal-entendido pode vir até mesmo do próprio psiquismo de pessoas mergulhadas em sucessivos processos de desconstrução. Foi no mesmo tom que o artista neo-renascentista Manduka pôs em versos de um fado tropical preocupação semelhante:

Quando for depois
e eu não estiver aqui
já deixo dito que sim,
embora as coisas do não
possam trocar as palavras,
como trocadas as asas
voam p’ra falsa estação.

Ocorre que fazer um inventário nada mais é do que pavimentar uma retórica a partir de elementos de memória e desejo, ou seja, trata-se de trilhar o terreno das interpretações. Manduka deixou algumas pistas, mas as lacunas são enormes, recaindo a nós que o sobrevivemos a tarefa de reunir cacos espalhados por seu extenso percurso pelo mundo em sua brevíssima vida.


Manduka tocando nas ruas do México, em meados dos anos 90

Além das dificuldades de coleta, a iniciativa também implica a entrada de outros elementos nebulosos na construção de sua história de vida, como consultas a documentos, entrevistas e relatos. A própria evocação da figura de Manduka às pessoas que com ele conviveram provoca ebulições que dão obliqüidade aos testemunhos. Ninguém que enquadrou os olhos nos dele fala impunemente sobre a experiência, pois Manduka era sempre uma ocorrência, uma efervescência na situação.

Como já mencionei nestas terras pindorâmicas, venho reunindo com o irmão de Manduka, Thiago Thiago, material para um relato biográfico e, apesar dos riscos de mal-entendidos, cumpro desejo do próprio artista, expresso numa conversa telefônica seis meses antes de sua morte. A idéia original era uma série de entrevistas em seu pequeno refúgio imperial em Petrópolis. Eu subiria a Serra e conversaríamos com o gravador ligado. Mas Manduka nos deixou antes que se concretizasse o projeto. Lembro nitidamente da conversa telefônica que começou assim:

Ele: “Alô!”
Eu: “Dom Manuel?”
Ele: “O Venturoso!”

Foi nessa atmosfera imperial que iniciamos um diálogo sobre aspectos de sua vida e, até hoje, me arrependo de não ter me livrado de outros compromissos que foram adiando a visita até que foi tarde demais.


Capa do disco Los sueños de América, gravado com o grupo chileno Los Jaivas

As histórias agora chegam por outras bocas. Thiaguinho coletou relatos no México, onde Manduka viveu por cinco anos. De minha parte, entrevistei o músico brasileiro Zé Licks, radicado na Alemanha, que conviveu brevemente com Manduka no país, após terem escapado, por pouco, do golpe que derrubou Allende no Chile. Mas faltam ainda testemunhos de pessoas que conviveram com ele na França, em Cuba, na Argentina, na Espanha e em inúmeros lugares do Brasil. O excelente compositor Cláudio Jorge, cujo blog Nas rodas de samba pode ser acessado ao lado, nos links, ou diretamente aqui, já me prometeu relatos de sua convivência com Manduka. O poeta Tavinho Paes também. Alceu Valença tem Manduka gravado num filme que está produzindo, e por aí segue.

Mesmo correndo o risco dos mal-entendidos, acho necessário contar a história de Manduka, pois um artista de seu nível não pode permanecer na obscuridade.


Capa do disco Septima Vida, com Pablo Milanes, gravado em Cuba

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Mulheres ao balcão


Mila Chaseliov, companheira fiel de copo, na Adega Pérola

Meu amigo antropólogo Pedro Nascimento escreveu uma monografia muito interessante sobre um pé-sujo perdido no coração da feira central de Campina Grande, na Paraíba. Durante meses ele acompanhou a conversa dos cachaceiros do outro lado do balcão e, no fim, saiu com o seguinte título: Mulher é o cão: A construção da identidade masculina em um bar da feira central de Campina Grande. Sim, amigos, o papo da rapaziada pesquisada por Pedro era invariavelmente sobre esses seres curvilíneos, cheio de hormônios siderais e humor instável. E os marmanjos, como quem desdenha o objeto cobiçado, estavam sempre reclamando, pois falar mal do sexo oposto cumpria o papel de explicitar a masculinidade diante dos companheiros.


Juliana Rangel gosta de ir ao boteco com suas amigas

Como Platão e seu pares fizeram no simpósio (traduzido erradamente como banquete) grego, esses botiquineiros reuniam-se diariamente assombrados diante da mulher, com seus cantos de sereias, seduzindo. Um desassossego, com certeza. Afinal, o homem comum que busca refúgio no boteco — dos deveres de marido (não são à toa as inúmeras anedotas sobre o sujeito que vai à feira para a mulher e estraga tudo ao parar no boteco para uma cervejinha rápida) e de trabalhador (pois no seu pé-sujo não encontra a hierarquia do trabalho, dos chefetes e gerentes) — ainda estranha a presença cada vez mais freqüente nos balcões de sherazades, janaínas, afrodites e outras alucinações do espírito, como diz Geraldinho Carneiro.


Rachel no Jobi, na mesa do Paiva

Mas, eis que elas vêm chegando com força. E assim, para homenagá-las, coloco essas fotos de amigas queridas que apreciam balcões em todo o mundo.


Claudinha toma uma cervejinha no Brooklyn, antes do inverno chegar


Martinika num café de Paris, cerveja ruiva e encorpada Pelfort


Denise Lopes gosta de saquê e de chope também


Bianca numa birosca em algum lugar entre Angra e Parati


Dose dupla: Dri Duval e Soraya no Decolores, em Nikiti

Por fim, um aviso. Minha dissertação de mestrado está agora salva em formato PDF e, portanto, disponível para quem se interessa por botequim, antropologia e coisas afins. Chama-se Pendura essa: A complexa etiqueta nas relações de reciprocidade em um botequim do Rio de Janeiro. Basta solicitar que envio por e-mail.