quarta-feira, 23 de maio de 2007

Toute ouverte au vent



Toute ouverte au vent
. É assim que um mito ancestral define a mulher, me disse uma amiga outro dia, numa mesa de bar. Ela mesma um ser mariposado, toda aberta ao vento, atravessada por sopros e furacões, cuja história de vida é marcada pela tragédia e a morte. Por haver me desencontrado de mim mesmo em seu jardim labiríntico, completamente apaixonado, ouço com atenção tudo o que ela me diz. Procuro memorizar não só as palavras, mas o tom de sua voz, na esperança de tentar desvendar, nas ênfases de seu sotaque afrancesado, o mistério do amor fugidio.

O mito, porque é mito, está sempre certo, seja qual for a alegoria, o delírio, a metáfora. A mulher infla na gravidez, seca na tristeza, reluz na paixão, e é quase sempre aérea, varada por ares os mais distintos, flutuando pela vida, numa intensidade brumosa, leve, por pouco incorpórea, e repleta de aberturas no corpo. Navegar pelos caminhos macios de sua pele, escalar os montes de seus músculos, percorrer suas curvas e perder-se para sempre em seus recantos mais obscuros é o exercício existencial ao qual me dedico desde a minha pré-história. Como diz o poeta Geraldo Carneiro: “Amar é o mar em que me precipito.”

Encontrei minha amiga do outro lado da rua, em pé na calçada, à espera de que meus olhos distraídos, enfim, cruzassem com os seus. Naquele momento, vagava sem rumo, em busca de um canto para amarrar as palavras que vêm dançando em volta de minha cabeça nesses dias de reencontros com velhas paixões, e eis que ela emerge na terceira margem do rio, como uma aparição. Sincronicidade. Andava no seu jeito de sempre, como quem pisa descalço no chão, e me tomou pela mão, dizendo que queria ver o mar. Porém, de longe! Pois as ondas ainda a assustam com as lembranças de abismo e a maresia que traz de volta o fim trágico de seu amor. Porém, uma chuva começou a cair intensamente e nos lavou o passado. Éramos inteiros naquele momento e, assim, pude vislumbrar seus ventos. Ela finalmente enterrava seus mortos.



Mais tarde, no velho botequim de bandeira lusitana, conversamos sobre a alma. Ela me disse, então, que a vida só se mantém após a morte na memória dos que estão vivos. Discordei por instinto, sem saber argumentar numa retórica patafisica. Como não sei nada desses assuntos, deixo o desejo decidir. Além disso, sei que em todas as sociedades e culturas humanas há a idéia de continuidade existencial.

Depois de nosso vôo estratosférico, nos separamos de uma vez por todas num abraço. Éramos agora completamente outros em nós mesmos. Zerados em um novo começo.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Botecos e a transformação da cidade

Amigos, li um relato imprescindível do amigo Luiz Antonio Simas, em seu excelente blog Histórias do Brasil, vejam link ao lado ou diretamente aqui. O texto, intitulado Resistir é preciso, faz uma crítica apaixonada à desconstrução de velhos costumes por uma lógica globalizante, imposta sobretudo pela mídia. Simas identifica nos botecos uma resistência a uma onda que padroniza o consumo dentro de uma lógica asséptica, de shoppings e redes pasteurizadas. Eu me identifico com o texto de Simas e até escrevi, num dos primeiros posts dessa versão 2 de Pindorama, sobre isso, por um outro ângulo, ao criticar a proliferação de condomínios auto-suficientes e como eles estavam matando a vida nos bairros, acabando sobretudo com o comércio de rua, não apenas botequins, mas igualmente açougues, verdureiros, jornaleiros, oficinas de bicicletas, afiadores de faca e toda uma rede de comércio de rua que funcionava, para além do negócio em si, como uma espécie de comunidade, dando vida ao bairro. Argumento, citando Jane Jacobs, uma crítica dos padrões arquitetônicos modernos das grandes metrópoles, que esses novos condomínios estão de costas para o bairro. São auto-suficientes e não estimulam a vida comunitária.


O maravilhoso chope do Bar da Amendoeira, em Maria da Graça, e o que restou de uma porção de carne seca desfiada com farofa

O botequim, tal como o entendemos hoje, surgiu na virada do século XIX para o XX, período em que o Rio se tornava uma cidade cosmopolita, recebendo um grande fluxo de pessoas de distintas origens: escravos recém-libertos; imigrantes europeus, em especial portugueses, espanhóis, italianos e alemães; e migrantes de outras partes do país, sobretudo do Nordeste. Enquanto o Rio engatinhava para se tornar uma metrópole, concentrando inclusive a função de capital do país, as tascas e vendas, os armazéns de secos & molhados, enfim, as boticas foram se tornando também ponto de encontro desse novo cidadão, que passava a perambular pelo Centro da cidade. O velho Aurélio supõe que a palavra botequim deriva do diminutivo de botica, botiquinha (por isso escrevo botequim com “o” e não com “u”, pois quero sempre marcar esse vínculo histórico, o momento do nascimento do termo e da coisa em si).


No Bracarense, onde se bebe um dos melhores chopes da cidade, a terceira geração já está assumindo os negócios

A cruzada contra o alcoolismo e o ócio desenvolveu campanhas intensas contra o botequim, que era visto como um desvio entre o lar e o trabalho, roubando o homem honesto da vida reta. Na verdade, era a imposição do capitalismo moderno que chegava com força ao Rio. Com o surgimento das fábricas, era preciso transformar em operário essa mão-de-obra disponível, que estava enchendo a cara nos botecos, na malandragem, na vadiagem. Nas primeiras décadas do século XX, um sujeito podia pegar cinco anos de cadeia se estivesse vadiando. Daí a imagem negativa que ainda anda associada ao botequim, como lugar do ócio, do álcool e da malandragem. Acontece que o botequim era um dos poucos lugares nessa sociedade extremamente hierarquizada, competitiva e desigual, onde o homem comum podia se sentir valorizado, reconhecido e respeitado, sem chefe, sem os deveres de marido, apenas um entre seus pares.


O Aurora, também de tradição portuguesa, está agora na segunda geração

A maioria das boticas era de comerciantes portugueses, seguidos de espanhóis e, um pouco mais tarde, de alemães, que introduziram o chope no nosso costume etílico. Juca, Manoel, Narciso, dona Maria e tantos outros ainda estão por aí, atrás de seus balcões. Mas à medida que vão envelhecendo surge o problema da sucessão dessas pequeníssimas empresas familiares. Quem vai assumir o lugar de seus donos originais?


O Bar do Serafim foi vendido pelo próprio ao Juca, conterrâneo de Tras-os-Montes, porque seus filhos não quiseram manter o negócio

Essa não é uma pergunta sem pertinência. Pois o problema da sucessão nos botequins, talvez mais do que a globalização das cidades com a imposição de costumes alienígenas e muitas vezes imperiais, como denuncia Simas em seu artigo —, é uma ameaça à sua continuidade como tal. Sobretudo num momento em que proliferam na cidade barzinhos que se autodenominam “botecos”, mas que não têm uma relação direta com a botica. São uma outra coisa.


Detalhe do Jobi, boteco antigo do Leblon, dos irmãos portugueses Manoel e Narciso

Ocorre que o trabalho num botequim não é tarefa das mais fáceis, como podem pensar alguns desavisados. Trabalha-se muito duro e enfrenta-se todo tipo de problema, do freguês bêbado valentão ao fiscal ladrão. Além disso, a profissão “dono de botequim” não é das mais prestigiadas na nossa sociedade. Por isso, muitos donos de boteco, ao sentirem que a idade está pesando demais não encontram nos filhos a disposição para manter o negócio. E, pronto, lá se vai aquela casa tradicional para as mãos de terceiros, muitas vezes com a intenção de mudar tudo (foi o que ocorreu, por exemplo, com o botequim Belmonte).


O balcão do Bar da dona Maria, na Muda, presença portuguesa tradicional

Nessa questão da sucessão, um fenômeno interessantíssimo que chama a atenção é a quantidade de cearenses que estão assumindo os bares de antigos portugueses. A maioria absoluta ex-garçons ou ex-cozinheiros do estabelecimento. Conheço uns seis ou sete casos, mas há mais. A maioria mantém o boteco no velho estilo, mas alguns mudam tudo. O que acontece é que o velho portuga não vê qualquer interesse nos filhos em manter o negócio — a maioria se formou em profissões consideradas mais nobres, graças ao dinheiro do botequim, e não quer ralar como os pais. Assim, acaba repassando o bar, em preços e condições bastante favoráveis, para o seu fiel garçom, alguém que ralou com ele anos a fio e demonstra disposição de continuar com o negócio.

Aliás, os cearenses também se especializaram como sushimen e outras cozinhas exóticas e requintadas, o que me leva a crer que cozinhar deve ser algo muito valorizado no Ceará. A Adega da Velha é um exemplo. O bar era de uma portuguesa (a velha do nome) e foi comprado pelo Chico Rufino, que manteve a estrutura, mas mudou a cozinha, investindo no cardápio nordestino (aliás, é difícil encontrar carne seca desfiada melhor na cidade, mas o seu forte mesmo é a galinha cabidela).


Juninho deu um tempo na carreira de advogado para ajudar o pai, Chico Rufino, no comando da Adega da Velha

Enfim, os botequins passam por transformações incontroláveis, algumas delas são uma violência contra a memória; outras, simplesmente, o ciclo natural da vida e da morte. Fico feliz de ver que ainda há na cidade inúmeros descendentes das velhas boticas, onde se realiza o sonho de Platão, através do simpósio, o ato de beber entre os pares e falar da vida.

Bom, para concluir, quero agradecer publicamente, aqui, ao amigo Marcio Pedreira, pela gentileza de me enviar duas fotos do Bar do Jóia, cuja morte do dono mereceu aqui uma crônica. Ele me avisa que o bar continua funcionando, levado por dona Alaíde e a turma dos fregueses assíduos, entre eles o próprio Marcio. Por isso, amigos, é hora de prestigiar a casa. Aliás, meu colega do Globo e titular da coluna Pé-Sujo, Juarez Becosa, fez uma bela e engraçada crônica sobre o Jóia.


O bar do lendário Jóia, no Centro, numa foto do amigo Marcio Pedreira

domingo, 13 de maio de 2007

Mimos camaleônicos


Lendo o Café Literário, com anotações, em um café no Rio

Minha amiga Cris, a Camaleoa — presente nos links aí ao lado ou diretamente aqui e aqui — me mima demais. Volta e meia, quando chego em casa tarde da noite, exausto do dia, sou surpreendido ao abrir a caixa postal e, em vez de contas e mais contas, me deparo com um grande envelope pardo, com a inscrição que remete à rua Oscar Freire, a essa cidade que descobri amorosamente, seu Centro velho, seus arranha-céus, a Avenida Paulista que se inclina do Masp para o Paraíso. A São Paulo da solidão e do amor profundo que achei e perdi... De modo que o envelope, antes mesmo de ser aberto já me traz muito.


Camaleoa com uma edição mais antiga do Café Literário

Uma vez aberto, ainda no elevador, vejo que minha amiga me enviou as últimas novidades do grupo de escritores e poetas independentes com quem ela perambula em Sampa. Nesses momentos, sinto um prazer sobretudo tátil, pois o uso do correio foi avassaladoramente substituído pelo e-mail. Hoje em dia, pouquíssimas pessoas recorrem a essa prática (minha amiga argentina Vane Indij também me faz esses cafunés postais, enviando cartas manuscritas, com perfumes, desenhos e inúmeros recortes de assuntos os mais diversos).

A gentileza postal e literária da Camaleoa ao me presentear com a produção desses escritores geniais, ela incluída, só aumenta minha dívida comigo mesmo de ir ao grande universo paulistano, para conhecê-la em carne osso — isso mesmo, amigos, embora Camaleoa seja uma amiga antiga, dos tempos em que ela agitava literatura e jornalismo gonzo em Mato Grosso do Sul, nosso afeto ainda é virtual. Preciso ir a São Paulo conhecê-la, pois uma pessoa que nesse início de século XXI ainda usa o correio não pode ser apenas uma projeção complexa de algoritmos binários. Também preciso retribuir a visita recente de Dri Duval (Dri, estou torcendo pela recuperação de sua amiga!) e beber um chope com meu brother Günther, amigo do século XIV, que reencontrei após 28 anos de silêncio através do Orkut.


Uma das ilustrações, bem safada, do Jornal da Praça. desenhada por Jr. Lopes

Mas voltando ao envelope pardo, dentro encontro duas publicações independentes: O Jornal da Praça e o Café Literário. O primeiro, generoso em fotos e ilustrações, lembra um fanzine, num estilo de diagramação que nos permite dobrá-lo ao meio para ler (preferia as letras um pouco maiores para os meus olhos míopes de homem idoso). Traz uma constelação de autores. Trata-se de “um projeto para uma revolução no país do Carnaval”, como diz uma das capas. Produção editorial e gráfica de Eduardo Barroux, parceiro no crime de Camaleoa.

A dupla está também por trás do Café Literário, mais encorpado, que traz poesia e prosa de qualidade, reunindo também vários autores. Vejam, por exemplo, esse trecho de Camaleoa, jornalista, poeta, “uma mulher complexa, quase 34 e, agora, casada”:

Bandeira era tísico
Mattoso é Glauco
Machado era epilético
enquanto a literatura
era profeta de Pasárgada
enquanto a literatura
manobrava ataduras com bengala
enquanto a literatura
mordia a língua e babava

Barroux nos apresenta Barcelona, texto em prosa escrito num fluxo de consciência que exige fôlego ao leitor. Quase morri afogado em meio às letras esfomeadas, cosmopolitas, poliglotas. É preciso lê-lo de um só gole. Uma talagada de cachaça, que queima a goela e nos empurra às suas meninas darks, dadas a safadezas nos becos escuros de sua Gothan City. Para mim foi um encontro com uma literatura ousada, sobretudo nesses tempos de ditadura do enredo, em que a prosa literária foi contaminada pelo jornalismo, com suas regras de objetividade, concisão e neutralidade de estilo. Futebol força em lugar do futebol arte. Isso é um problema, pois nem todos têm a genialidade de Rubem Fonseca, por exemplo, para fazer incólume esse namoro com a imprensa. Barroux usa e abusa, sem medo de ser feliz, de um estilo literário denso. Preocupa-se em narrar, no sentido que Lukács dá ao termo, dentro de um estilo rico em imagens que fazem do enredo uma magia, um delírio. Mas sem exagero, sem a “cachoeira de metáforas”, como diz Abel Silva.

O Café Literário traz mais. Tem, por exemplo, Débora Aligieri, felina, freudiana...

meu primeiro homem era vagabundo
para o trabalho e para o dinheiro
mas laborioso para o amor
faltou muitos dias no serviço
acumulou dívidas
mas amou-me o suficiente
para reconhecê-lo meu pai

... e este trecho de Rosalina Marcondes, que me lembrou os tempos da poesia pornô, da turma do Eduardo Kac, Cairo Assis Trindade, Fernando Tanussi, Mano Melo, Lapí e muitos outros:

levanto a saia e vou a sua vara
sabendo-me desejada
o íntimo nua e penetrada
e tocada e acesa, dominada


A capa da edição comemorativa do Cien Años

E já que estamos mais uma vez no terreno das letras, recomendo aos amigos que não deixem de comprar a edição comemorativa do romance Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Trata-se de uma bela versão, em espanhol, mexida pelo autor e com alguns ensaios sobre a literatura de Gabo por feras como o mexicano Carlos Fuentes e o peruano Vargas Llosa, este último desafeto do escritor colombiano, a quem derrubou com um direto de esquerda há 20 e tantos anos, numa fila de cinema. Assunto de mulher, dizem os rumores nunca confirmados. Mas, no ensaio, Llosa se rende ao poder das palavras de seu ex-amigo e faz um ensaio interessantíssimo, bastante técnico, o qual, conhecendo o enredo rocambolesco dessa briga e o mistério que a envolve, nos permite perceber nas entrelinhas uma certa secura ácida nos elogios. Bem, amigos, a edição foi cuidada pela Real Academia Española e custa a bagatela R$ 28, por 608 páginas protegidas por capa dura. A Academia, diga-se de passagem, já tinha feito uma homenagem semelhante a Miguel de Cervantes, reeditando uma versão comemorativa de Dom Quixote, por R$ 29.

domingo, 6 de maio de 2007

Uma diva na Modern Sound


Leny solta o vozeirão para uma deleitada platéia no Allegro Bistrot

A Modern Sound não é apenas uma loja de discos; é um espaço musical. A loja existe há 40 anos e é administrada pelo seu Pedro como se fosse um botequim, inclusive com a rudeza característica de muitos empresários de balcão. Pedro começou vendendo discos importados, depois abriu numa lojinha na galeria do antigo Bruni Copacabana, onde a casa permanece até hoje, só que foi crescendo e se tornou uma megastore, considerada entre as cinco melhores do mundo, segundo a lista de uma revista britânica especializada. Esse reconhecimento só confirma o que sempre senti, quando, no início dos anos 70, ia garimpar discos na loja de seu Pedro.


Andrea Dutra acompanhada por Paulinho Malguti ao piano

Na época, estudava música e lá encontrava não só os discos que simplesmente não estavam disponíveis em outras lojas da cidade, mas também esbarrava com colegas e artistas já consagrados, de tal modo, que o assunto fluía em torno dos discos que examinávamos. Era um point de músicos e amantes de música e o assunto era esse universo. Os vendedores eram especializadíssimos em suas áreas respectivas, com informações que iam muito além das notas que vinham nos discos.


Clientes garimpam CDs nos gavetões de madeira da Modern: ambiente musical

No ano passado, o Arthur Dapieve fez uma belíssima crônica sobre a Modern, falando sobre como é difícil resistir à tentação de levar algum disco raro, quando passa por lá. Mesmo quando resiste e não compra o disco na hora, depois, em casa, não consegue tirar o produto da cabeça e acaba voltando no dia seguinte para arrematar, resignadamente, a compra. Também sou assim. Mas, além do amplo catálogo (são mais de 100 mil títulos), é a ambiência musical que torna essa loja especial para mim, sobretudo depois que inauguraram o bistrô Allegro, com música ao vivo de segunda a sábado, só com feras de altíssimo calibre.

Desde então, se tornou um ritual, que procuro cumprir pelo menos uma vez por mês, ir lá aos sábados na hora do almoço, comer ouvindo bossa nova e jazz da melhor qualidade, executada pelo Modern Sound Quartet, com o saxofonista francês Idriss Boudrioua, o baixista Sergio Barroso, o pianista Dario Galante, e o baterista José Boto. Até pouco tempo atrás, tinha também o excelente quarteto de Andréa Dutra (voz), Paulinho Malaguti (piano), Zé Luiz Maia (contrabaixo), e um batera, cujo nome me escapa. Sinto falta do grupo.


Gaudencio Thiago de Mello toca sua percussão orgânica, num show na Modern Sound, ano passado

Como o ambiente musical predomina na casa, é comum rolar jam sessions, isto é, os músicos vão aparecendo e dando canja. Pois bem, amigos, depois de muita delonga chego ao lead desse post. Neste sábado, a canja rolou solta, com o excelente guitarrista uruguaio Leornado Annuedo, que toca com Ivan Lins, e vários músicos que se alternaram ao piano, como Haroldo Mauro Junior, a quem conheci nos anos 70, quando morei em Nova York (ele tocava na Amazon, banda de meu pai), e Fernando Merlino (que aparece na foto do alto com a Leny). Enquanto a música rolava solta, num cantinho, a diva Leny Andrade almoçava a feijoada do bistrô.


Claudio Roditi atacou só clássicos de John Coltrane

Acabou não resistindo e subiu ao palco e arrasou cantando quatro clássicos de bossa e jazz, inclusive com muito improviso vocal, como se fosse mais um instrumento. Me dei conta então, que naquele palco vi feras como Cláudio Roditi, Paulo Moura, Maria Rita, meu pai, Gaudêncio Thiago de Mello, Andréa Dutra e tantos outros, sem pagar qualquer couvert artístico. Não há no mundo, amigos, um lugar onde que se possa ouvir Leny Andrade, completamente descontraída, soltando o vozeirão ao preço de uma água mineral. Enquanto isso, os ingressos para assistir o Enio Morricone custavam em torno de 300 paus.


Haroldo Mauro Junior ao piano: canja na Modern Sound

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Estará de volta o puritanismo?



Outro dia me assombrei no jornal, quando uma estagiária de 21 anos e de beleza indiscutível me disse com toda a singeleza do mundo que só se deitaria com o homem que fosse se tornar seu marido. Vejam bem, meus amigos, ela não afirmou tais palavras com o ar solene e os olhos tomados pela emoção transcendental de quem experimentou uma epifania. Nada disso. Ela falou assim, quase casualmente, como quem diz que prefere o ônibus ao metrô. Para ela, aparentemente, aquilo não era, como dizem os americanos, um big deal. Em seu mundo, casar-se virgem fazia parte do curso “natural” da vida.

Atônito e curioso, investi no assunto para tentar entender a gênese daquele comportamento que, para mim, havia sido devidamente sepultado, com pompa e circunstância, algumas gerações atrás, a partir dos anos 60. Julguei, pelo visto erroneamente, que, com a filosofia do amor livre e os métodos anticoncepcionais; com a popularização da psicanálise e de filósofos revolucionários do comportamento, como Herbert Marcuse e Wilhelm Reich; e com a diluição de alguns tabus sexuais no caldeirão da modernidade essa moral dos bons costumes da época de minha avó (que se casou virgem aos 15 anos) tivesse sido superada, como parte do processo evolutivo da espécie humana. Mas, prova de que o evolucionismo é de fato uma falácia científica, eis que, ao dobrar a esquina do tempo, esbarro com o valor da castidade em pleno vigor de sua saúde.



Minha amiga me explicou então que os pais são dessa geração libertária e do amor livre e, com a separação deles, ela percebeu que havia nessa liberdade do corpo e do prazer um preço alto a ser pago: a pulverização do afeto, do sentimento de amor. Para ela, se entendi bem sua argumentação, não se trata de uma defesa da pureza do corpo no sentido moral e religioso, mas sim de preservar o amor como sentimento, pois este, aos seus olhos, se dilui à medida que o sexo invade o seu domínio. O gozo sexual, para ela, deve ser apenas um suporte, quase circunstancial, desse sentimento maior que é o amor, cujo prazer é infinitamente superior, pois levaria não apenas ao orgasmo, mas ao êxtase, resultado do encontro do físico com o emocional.

Meu assombro foi ainda maior ao perceber que, na sua geração, tal comportamento não é de modo algum visto como uma aberração. Suas amigas, mesmo as que têm uma vida sexual ativa, respeitam e valorizam sua postura. Vejo, assim, que valores como virgindade e matrimônio estão em alta novamente e a idéia dos lares desfeitos e dos casamentos fadados ao infortúnio é associada por essa turma à “promiscuidade” não só do sexo livre, mas de todos os comportamentos que derivam de valores que questionavam os variados graus de repressão sexual que amarravam nossa sociedade.

Para a minha geração, a virtude vitoriana sempre foi um valor falso, que não resistia à realidade. Eram posturas da boca para fora, como bem evidencia a magnífica obra de Nelson Rodrigues: uma sociedade impecável na aparência e torpe nos bastidores. Em vez de manter a falsa moral, minha geração preferiu romper com tudo de forma revolucionária, restringindo, em primeiro lugar, o forte espaço da religião nesse campo (por isso, até hoje me causa indignação ver o papa criticando o uso da camisinha).



Sai a religião, entra a ciência na forma da psicologia e da psicanálise, da antropologia dos sentimentos e da filosofia crítica. O amor livre, o homossexualismo, as fantasias e todo o complexo caleidoscópio da sexualidade humana passam a ser tratados não só como uma questão da alma, mas igualmente do corpo e da mente. Algo que está submerso no inconsciente e precisa ser evidenciado, desatando os nós do psiquismo. Assim, para a minha geração, o machismo atrasado dos homens e sua insegurança diante da mulher, de um lado, e a histeria das mulheres reprimidas, de outro, passaram a ser, por exemplo, objetos das discussões em torno da felicidade sexual e não mais o problema da fidelidade conjugal ou da pureza virginal das mulheres. Para minha geração, uma mulher que conheça o próprio corpo e os caminhos de seu prazer é mais valorizada do que a virgem (não vou entrar aqui na discussão acerca dos significados antropológicos da virgindade e da troca de mulheres nas sociedades humanas, inclusive a nossa).

De modo que, para mim, é espantoso ver isso que me parece ser uma volta ao passado. Bom, sendo esperançosamente indulgente, talvez, esse, digamos, retorno à caretice seja uma forma perversa que esses jovens construíram para reencontrar o gozo da transgressão. Retoma-se a busca da pureza e da castidade, para romper com ela com a sensação da transgressão. Mas será isso que os move?



Há uma outra lógica, mais sinistra, pois parte de um princípio econômico: uma espécie de poupança para a “casa própria” afetiva, em que o poupador se priva durante um longo e tenebroso período do consumo para depois usufruir plenamente daquilo que é seu por direito, sem sentimentos de culpa. Tal lógica, dizia Reich, é responsável pelas couraças emocionais que podem se materializar no corpo em tumores malignos, pois se trata ao fim e ao cabo de simplesmente adiar a vida. Além, é claro, do grande risco de a “casa própria” não ser tudo aquilo tudo que se sonhou, quando chegar o momento de habitá-la.

Nos EUA, o movimento de abstinência sexual entre os jovens é fortíssimo, sobretudo depois do surgimento da Aids, vista como uma doença moral, símbolo da decadência dos valores seculares e um alerta sobre os riscos do abandono da virtude corporal. Mas, numa sociedade puritana e competitiva como a americana, tal fenômeno não me espanta nem um pouco. Acho inclusive que essa fixação por armas de fogo que domina o país tem a ver diretamente com a moralidade em torno do sexo. Cuspir bala nas universidades e redes de fastfood dos EUA é equivalente a ejacular. Quanto maior o calibre, maior a potência sexual. Eros e Thánatos, juntinhos, brincando nas cidades americanas.



Ontem mesmo vi uma exposição do fotógrafo Johann Rousselot (vejam aqui) sobre jovens americanos que participam do movimento de abstinência sexual em Dakota do Sul, e que se identificam por um anel, símbolo da castidade. As adolescentes do movimento prestam o seguinte juramento:

Com fé no Seu poder para me fortalecer, prometo hoje a Deus, a minha família, a mim, a meu futuro marido, a meus futuros filhos, a permanecer sexualmente pura até o dia em que me entregarei como uma dádiva na noite de núpcias ao meu marido. Sei que Deus exige isso de mim, que Ele me ama, e que me compensará por minha fé, nesta vida e na próxima.

No Brasil, onde o catolicismo e o sincretismo religioso ainda predominam, os tabus em relação ao sexo aparecem de outra forma. Também há uma repressão sexual e a imposição de uma ordem baseada na moral e nos bons costumes, seja lá o que isso signifique. Mas, no geral, percebo que o papa fala, mas ninguém dá muita atenção. As mocinhas ainda estão perdendo a virgindade no mato, entre uma missa e outra, e essas são, na minha opinião, as mais saudáveis.



Mas minha casta amiga — e não tenho razões para desconfiar de sua pureza — é um sinal dos tempos. Uma voz que mostra, no mínimo, que o problema do amor e do sexo tem um buraco próprio, que se situa muito mais embaixo do que especula nossa vã filosofia.