Amigos, li um relato imprescindível do amigo
Luiz Antonio Simas, em seu excelente blog
Histórias do Brasil, vejam link ao lado ou diretamente
aqui. O texto, intitulado
Resistir é preciso, faz uma crítica apaixonada à desconstrução de velhos costumes por uma lógica globalizante, imposta sobretudo pela mídia.
Simas identifica nos botecos uma resistência a uma onda que padroniza o consumo dentro de uma lógica asséptica, de shoppings e redes pasteurizadas. Eu me identifico com o texto de
Simas e até escrevi, num dos primeiros posts dessa versão 2 de
Pindorama, sobre isso, por um outro ângulo, ao criticar a proliferação de condomínios auto-suficientes e como eles estavam matando a vida nos bairros, acabando sobretudo com o comércio de rua, não apenas botequins, mas igualmente açougues, verdureiros, jornaleiros, oficinas de bicicletas, afiadores de faca e toda uma rede de comércio de rua que funcionava, para além do negócio em si, como uma espécie de comunidade, dando vida ao bairro. Argumento, citando
Jane Jacobs, uma crítica dos padrões arquitetônicos modernos das grandes metrópoles, que esses novos condomínios estão de costas para o bairro. São auto-suficientes e não estimulam a vida comunitária.
O maravilhoso chope do Bar da Amendoeira, em Maria da Graça, e o que restou de uma porção de carne seca desfiada com farofa
O botequim, tal como o entendemos hoje, surgiu na virada do século XIX para o XX, período em que o Rio se tornava uma cidade cosmopolita, recebendo um grande fluxo de pessoas de distintas origens: escravos recém-libertos; imigrantes europeus, em especial portugueses, espanhóis, italianos e alemães; e migrantes de outras partes do país, sobretudo do Nordeste. Enquanto o Rio engatinhava para se tornar uma metrópole, concentrando inclusive a função de capital do país, as tascas e vendas, os armazéns de secos & molhados, enfim, as boticas foram se tornando também ponto de encontro desse novo cidadão, que passava a perambular pelo Centro da cidade. O velho
Aurélio supõe que a palavra botequim deriva do diminutivo de botica, botiquinha (por isso escrevo botequim com “o” e não com “u”, pois quero sempre marcar esse vínculo histórico, o momento do nascimento do termo e da coisa em si).

No Bracarense, onde se bebe um dos melhores chopes da cidade, a terceira geração já está assumindo os negócios
A cruzada contra o alcoolismo e o ócio desenvolveu campanhas intensas contra o botequim, que era visto como um desvio entre o lar e o trabalho, roubando o homem honesto da vida reta. Na verdade, era a imposição do capitalismo moderno que chegava com força ao Rio. Com o surgimento das fábricas, era preciso transformar em operário essa mão-de-obra disponível, que estava enchendo a cara nos botecos, na malandragem, na vadiagem. Nas primeiras décadas do século XX, um sujeito podia pegar cinco anos de cadeia se estivesse vadiando. Daí a imagem negativa que ainda anda associada ao botequim, como lugar do ócio, do álcool e da malandragem. Acontece que o botequim era um dos poucos lugares nessa sociedade extremamente hierarquizada, competitiva e desigual, onde o homem comum podia se sentir valorizado, reconhecido e respeitado, sem chefe, sem os deveres de marido, apenas um entre seus pares.

O Aurora, também de tradição portuguesa, está agora na segunda geração
A maioria das boticas era de comerciantes portugueses, seguidos de espanhóis e, um pouco mais tarde, de alemães, que introduziram o chope no nosso costume etílico. Juca, Manoel, Narciso, dona Maria e tantos outros ainda estão por aí, atrás de seus balcões. Mas à medida que vão envelhecendo surge o problema da sucessão dessas pequeníssimas empresas familiares. Quem vai assumir o lugar de seus donos originais?
O Bar do Serafim foi vendido pelo próprio ao Juca, conterrâneo de Tras-os-Montes, porque seus filhos não quiseram manter o negócio
Essa não é uma pergunta sem pertinência. Pois o problema da sucessão nos botequins, talvez mais do que a globalização das cidades
— com a imposição de costumes alienígenas e muitas vezes imperiais, como denuncia
Simas em seu artigo —, é uma ameaça à sua continuidade como tal. Sobretudo num momento em que proliferam na cidade barzinhos que se autodenominam “botecos”, mas que não têm uma relação direta com a botica. São uma outra coisa.
Detalhe do Jobi, boteco antigo do Leblon, dos irmãos portugueses Manoel e Narciso
Ocorre que o trabalho num botequim não é tarefa das mais fáceis, como podem pensar alguns desavisados. Trabalha-se muito duro e enfrenta-se todo tipo de problema, do freguês bêbado valentão ao fiscal ladrão. Além disso, a profissão “dono de botequim” não é das mais prestigiadas na nossa sociedade. Por isso, muitos donos de boteco, ao sentirem que a idade está pesando demais não encontram nos filhos a disposição para manter o negócio. E, pronto, lá se vai aquela casa tradicional para as mãos de terceiros, muitas vezes com a intenção de mudar tudo (foi o que ocorreu, por exemplo, com o botequim
Belmonte).
O balcão do Bar da dona Maria, na Muda, presença portuguesa tradicional
Nessa questão da sucessão, um fenômeno interessantíssimo que chama a atenção é a quantidade de cearenses que estão assumindo os bares de antigos portugueses. A maioria absoluta ex-garçons ou ex-cozinheiros do estabelecimento. Conheço uns seis ou sete casos, mas há mais. A maioria mantém o boteco no velho estilo, mas alguns mudam tudo. O que acontece é que o velho portuga não vê qualquer interesse nos filhos em manter o negócio — a maioria se formou em profissões consideradas mais nobres, graças ao dinheiro do botequim, e não quer ralar como os pais. Assim, acaba repassando o bar, em preços e condições bastante favoráveis, para o seu fiel garçom, alguém que ralou com ele anos a fio e demonstra disposição de continuar com o negócio.
Aliás, os cearenses também se especializaram como
sushimen e outras cozinhas exóticas e requintadas, o que me leva a crer que cozinhar deve ser algo muito valorizado no Ceará. A
Adega da Velha é um exemplo. O bar era de uma portuguesa (a velha do nome) e foi comprado pelo
Chico Rufino, que manteve a estrutura, mas mudou a cozinha, investindo no cardápio nordestino (aliás, é difícil encontrar carne seca desfiada melhor na cidade, mas o seu forte mesmo é a galinha cabidela).
Juninho deu um tempo na carreira de advogado para ajudar o pai, Chico Rufino, no comando da Adega da Velha
Enfim, os botequins passam por transformações incontroláveis, algumas delas são uma violência contra a memória; outras, simplesmente, o ciclo natural da vida e da morte. Fico feliz de ver que ainda há na cidade inúmeros descendentes das velhas boticas, onde se realiza o sonho de
Platão, através do
simpósio, o ato de beber entre os pares e falar da vida.
Bom, para concluir, quero agradecer publicamente, aqui, ao amigo
Marcio Pedreira, pela gentileza de me enviar duas fotos do
Bar do Jóia, cuja morte do dono mereceu aqui uma crônica. Ele me avisa que o bar continua funcionando, levado por dona
Alaíde e a turma dos fregueses assíduos, entre eles o próprio
Marcio. Por isso, amigos, é hora de prestigiar a casa. Aliás, meu colega do
Globo e titular da coluna
Pé-Sujo,
Juarez Becosa, fez uma bela e engraçada crônica sobre o
Jóia.
O bar do lendário Jóia, no Centro, numa foto do amigo Marcio Pedreira