segunda-feira, 30 de abril de 2007

Ode às strange kind

Esta é uma das fotos que estarão à venda no leilão da Christie's, em Londres, a partir de US$ 44 mil. Foto de Irving Penn

Sempre fui atraído pelas mulheres esquisitas, aquelas que são chamadas de strange kind, cuja beleza escapa completamente à ordem geral do padrão vigente (e que, no Rio, diga-se de passagem, impõe-se de forma avassaladora sobre as nossas nativas). Algumas dessas mulheres esquisitas até são tidas como feias pela opinião geral, mas trazem aos meus olhos uma beleza selvagem irresistível. Não tenho nada contra as "gostosinhas", muito pelo contrário, mas as strange kind carregam com elas uma promessa misteriosa de insuportável impetuosidade. Além disso, sua personalidade costuma acompanhar a forma física e, desse modo, são mulheres de alma instigante e desafiadora, repletas daquela paixão meio nietzscheana, onde a razão cartesiana não tem lugar.

Sendo assim como sou, não me surpreendi com a notícia, na semana passada, de que fotos da modelo Kate Moss, um exemplo de strange kind (embora nessa estirpe de mulher não exista um padrão exemplar), serão leiloadas agora em maio, a partir de US$ 44 mil por imagem, na Christie's, famosa casa de leilão em Londres.

Acima, outra foto de Kate Moss, esta de autoria da fotógrafa Bettina Rheims

domingo, 22 de abril de 2007

Saudades do Seu Jóia


O Bar da Amendoeira, em Maria da Graça, famoso pelo chope e pela carne-seca desfiada com farofa: autêntico boteco de esquina

Aos 12 anos de idade, o carioca Joaquim Nunes da Silva, o Seu Jóia, começou a trabalhar no bar do pai, um pé-sujo fundado em 1909, num velho sobrado com seis portas em arco, na rua dos fundos do Colégio D. Pedro II, na parte velha do Centro do Rio. Desde então, o Bar do Jóia foi a sua vida e talvez, por isso, ele tenha feito do charmoso estabelecimento a sua casa. Para entrar lá, por exemplo, era preciso ter a mesma etiqueta que se tem quando se visita a casa de um amigo: bom dia! boa tarde! Do contrário, a ira de Seu Jóia era despejada sem meias palavras sobre o abusado. Pois bem, o Seu Jóia nos deixou na semana passada, pelos meus cálculos aos 84 anos de idade, quase todos passados no seu bar, de onde testemunhou todas as transformações da cidade, inclusive a abertura da Avenida Presidente Vargas, que rasgou o Centro ao meio, devastando uma grande parte do casario vizinho.


O Bip Bip, com sua roda de samba: pé-sujo de altíssimo nível, em Copacabana, sob o comando do Alfredinho

Durante anos, a turma do Rio Botequim tentou convencê-lo a deixar o bar entrar no guia. Ele só cedeu em 2005, graças ao apelo insistente dos fregueses mais antigos. Mesmo assim, depois se arrependeu e o bar acabou não saindo no guia. O Bar do Jóia representa aquilo tudo que um pé-sujo digno deve ter: a ambiência, a comida, a bebida, a arquitetura, a decoração e, sobretudo, as relações de convivência que fazem dos botequins uma espécie de clube social aberto a quase todos. Por isso, o Jóia é visto como um símbolo, que contrasta enormemente com os bares moderninhos que surgiram na cidade na esteira da valorização do sentido da palavra botequim.


Wilson Flora, o Baiano (um enciclopédia ambulante de pés-sujos), diante de um prato de joelho de porco no Bar do Paulinho, em Higienópolis

Bares como Belmonte, Conversa Fiada e Devassa, para citar três, são outra coisa. Não tenho nada contra, até vou a esses lugares, mas não são um botequim no sentido que o Jóia é. E afirmo isso tranqüilamente, pois não quero aqui ficar, como muitos especialistas no tema agora fazem, com bandeiras do que é ou não carioquismo legitimo. Não quero fetichizar o pé-sujo, congelando a idéia de botequim no tempo, em nome da memória de um Rio que já foi ou que desaparece devagarinho. O boteco é um reflexo da cidade e esta, queiramos ou não, muda e se transforma incessantemente. Novas influências, novas gerações, novos entendimentos do que ela deve ser, novos personagens que surgem etc. Assim é a vida.


Zé Octávio Sebadelhe (ex-pesquisador do Rio Botequim) com o que restou de uma pescadinha num dos bares (Ocidental) do Triângulo das Sardinhas, no Centro

Mas o fato é que pés-sujos como o Bar do Jóia ainda existem espalhados por aí. E isso é bom. Puxando rapidamente da memória, cito alguns. O Decolores e o Chalé são dois exemplos em Niterói. O Bar do Paulinho, em Higienópolis, o do Costa, em Vila Isabel, e o Pavão Azul, em Copa, são outros. E há mais, muito mais. Mesmo nesses tempos em que a rejeição que existia com respeito ao botequim deu lugar a uma imitação por parte de seus “primos ricos”, cada um desses pés-sujos autênticos ainda preserva aquela coisa toda que faz de um estabelecimento que vende bebida alcoólica e comida um botequim.

Seu Jóia vai deixar saudade.


Moacyr Luz conversa com três muquiranas num pé-sujo (os muquiranas de botequim sempre coçam a barriga com o polegar para baixo)


Adega da Velha ainda impera em Botafogo, onde recentemente abriram novos pés-limpos, como o Odorico e a filial chic do Bar do Adão


Decolores, em Niterói (com Soraya e Dri Duval à mesa): o pé-sujo tem em seu currículo até mesmo o assassinato de um bicheiro


sábado, 21 de abril de 2007

Recife e o mundo perdem mais um poeta

Estava trabalhando no jornal, mergulhado nas tarefas rotineiras de redator, quando chegou o e-mail apenas com duas palavras no subject e mais nada: “Luna morreu”. É impressionante como duas palavras podem detonar todo um sentimento de tristeza, transformar o seu dia e te estimular a encarar a vida com mais garra. Erickson Luna leva, em sua jornada, um pouco da graça desse mundo. Certamente estará com outros grandes, como Manduka, Espinhara, Leminski, Torquato, Ana Cristina César, Hilda Hilst e tantos outros, mas nós aqui vamos ficando cada vez mais solitários, necessitados de mentes e corações brilhantes.


O poeta Erickson Luna recitando numa praça do Recife, em 2005

Há um trecho de um poema de Manduka que resume a qualidade de gente como Luna:

Por isso somos quem somos
Estrelas de um só momento
Mas cujo brilho ameaça
A ordem do firmamento

Luna era assim. Um brilho que ameaçava a ordem careta das coisas. Com sua poesia e sua forma de estar no mundo, ele combatia o medo neurótico que paira sobre as pessoas no universo jaburu como uma nuvem de granito. Com suas roupas de mendigo e seu bafo de cachaça, ele incomodava, mas não pelo estado indigente e desvalido que normalmente marca as pessoas da rua e que nos leva ao regime da pena. Ao contrário, Luna incomodava pelo vigor e pela autonomia, sobretudo quando recitava. De sua boca saía uma voz embargada por partículas etílicas e versos delirantes. Ele deixava claro que estava no mundo patafísico, longe da repetição incessante, que definha a alma das pessoas, numa morte lenta e agonizante. De fato, estrela de um só momento.


Um dos últimos livros do poeta, do qual saíram os versos abaixo

Já escrevi sobre o Luna no velho Pindorama e sua poesia, que conheci no Recife em 2004. A última vez que nos falamos foi por telefone. Uma conversa rápida, mas intensa, como ele era, sem concessões a qualquer um e a qualquer circunstância. Provavelmente morreu disso, um excesso de vida, como todos os nobres citados acima. A vida para Luna foi inteira, em todos os sentidos. E ontem, ao ler o e-mail, me dei conta que ele estava ali, fazendo comigo de novo o que sempre fez: me mobilizar para a vida, me chamar a atenção para os riscos da mesmice que dilui a nossa alma. Reforçar minha intenção de encarar todas coisas que valem a pena nesse mundo.

Mas é melhor que ele fale por si:

As ruas são simétricas
há compasso nos andares
estranha matemática a cidade
dois mais dois ninguém é um

Ou ainda:

Há de novo
o futuro
outro bote
no escuro
outro barco
com furo
outro mar

Luna era muito amigo de Espinhara, que também atravessou o rio. Conheci os dois poetas através do jornalista Bráulio Brilhante, outra figura genial do Recife. Estava na cidade num congresso de antropologia, de modo que deixava Gilberto Freyre pela manhã e me encontrava com Manuel Bandeira à tarde, levado pelas graciosas mãos de Soraya (aliás, me dou conta de que foi ela quem me apresentou a cidade, como já havia feito em relação a Niterói), no velho mercado do Centro antigo de Recife, palco de todos esses encontros de pessoas geniais e de minhas paixões: a literatura, o jornalismo e a antropologia.

Luna subiu e está, agora, com Bandeira e Espinhara, olhando o Recife de cima.

sábado, 14 de abril de 2007

Sutilezas do conceito de negritude

Entrei no universo de Nei Lopes a primeira vez pelas mãos de Manduka, não me lembro exatamente quando, mas devia ser em meados dos anos 80. Manduka me disse com um sorriso maroto: “Escute esse samba!”. E eu ouvi Luxuosos transatlânticos, descobrindo a fina ironia, que é o estilo que marca tanto a produção musical e poética de Nei, como sua outra vertente de homem brilhante, que só descobri mais tarde: a do intelectual e ensaísta, responsável pelo mapeamento das origens africanas do negro brasileiro, e um importante e cultuado militante do movimento negro. Nei é um homem sábio e quem quiser beber mais de suas palavras pode encontrá-lo em seu blog Meu Lote (link ao lado) ou clicando diretamente aqui.


Este é o logo do blog Meu Lote, de Nei Lopes

Na última quinta-feira, ele escreveu um artigo na página de Opinião do Globo, intitulado Brasil, berço dos imigrantes, muito pertinente, sobre os grupos europeus, sobretudo italianos, que foram incentivados a vir para o Brasil para embranquecer o país. Ele lembra, num texto riquíssimo, que o Brasil continua sendo o berço desses imigrantes e seus filhos, mas se esquece daqueles outros imigrantes forçados, que vieram para cá, capturados por traficantes humanos. Ele destaca a importância da noção de negritude, como forma de consciência cultural para escapar aos estereótipos sociais designados para o negro em nossa sociedade, sejam esses papéis positivos, como no caso do artista talentoso ou do jogador de futebol habilidoso, ou negativos.

A questão do racismo no Brasil é hoje um tópico que está de novo em ebulição, num momento em que se discute, por exemplo, o problema das cotas. E, como não poderia deixar de ser, é assunto de complexa reflexão e de difícil digestão, do ponto de vista tanto sociológico como psicanalítico, pois mexe com uma noção de identidade forte na constituição do que, afinal, é ser brasileiro.

A discussão das cotas para acesso à universidade dividiu os acadêmicos e intelectuais e o assunto é nitroglicerina pura. Outro dia, por exemplo, na redação do Globo, expus minha opinião sobre o tema, afirmando que, embora reconheça a enorme dívida social e histórica que a nação brasileira tem para com seus filhos negros, prefiro um sistema de cotas sociais, em que são levadas em conta as condições materiais das pessoas que pleiteiam vagas. Disse isso pensando que uma cota social seria mais abrangente do que uma racial, englobando, por exemplo, o migrante nordestino de pele clara que não tem recursos para fazer uma faculdade. E acrescentei que uma cota social, desde que honestamente distribuída, teria forçosamente uma maior incidência de beneficiados negros, uma vez que são maioria nos segmentos da população que durante séculos foram e são marginalizados e oprimidos no país. Pronto. Fui chamado de alienado e até de racista.

Na academia tampouco consegui discutir o assunto de forma meramente reflexiva. Fala muito ao coração das pessoas e o tom da conversa vai subindo até virar uma discussão agressiva, em que a argumentação dá lugar à defesa de posições ideológicas. Bem, com tanta opressão e tendo a escravidão como passado histórico recente, não poderia ser de outra forma. O Brasil é racista de uma forma muito particular e insidiosa. A segregação, que nos Estados Unidos, por exemplo, é física e explícita, aqui é mais simbólica (embora se materialize o tempo todo em resultados pragmáticos perversos) e muito mais difícil de ser percebida e combatida. Ela é introjetada no imaginário das pessoas, camuflada num discurso de igualdade de raças, e diabolicamente eficaz na sua preservação.

Por outro lado, o artigo do Nei fala, em determinado momento, que os ancestrais do negro brasileiro foram trazidos à força, ”caçados como bichos, sim, por europeus ‘tango-maus’, e, também, sabemos, por africanos corrompidos, colaboracionistas (...)”. Essa frase me chamou a atenção para um aspecto dessa discussão, que considero importante.


Papa Wemba, rei da rumba africana, um pop maravilhoso e contagiante

Como qualquer brasileiro, aprendi a ver o mundo em termos de raças. A Antropologia, no entanto, abriu um leque para mim, inserindo nesse caldeirão culturas, grupos étnicos, nações etc. Enfim, complexificou o meu olhar e com isso me permitiu refletir melhor sobre nuances. A África sempre foi o continente negro, da raça negra, e essa idéia homogeneizante e higienizante, num sentido de um pureza racial, nos deixa perdidos em certa obscuridade sobre as ricas, e às vezes violentas, diferenças culturais que existem por lá. Onde vemos uma raça negra única, os africanos vêem milhares de grupos étnicos, com suas culturas particulares, suas diferenças, suas trocas e seus conflitos. Hutus que odeiam tutsis em Ruanda, peuls que convivem lado a lado com griôs no Mali e no Senegal; grupos que são muçulmanos, outros que rezam para os Orixás, e por aí vai.

Enfim, conheço muito pouco sobre o continente para deitar falação, apenas alguma coisa de sua literatura fantástica (o Ahmadou Kouruma, da Costa do Marfim, com sua saga En attendant les votes des bêtes sauvages, que foi comparada a Cem anos de solidão, e um livro traduzido para o português, cujo título não me lembro — é algo como Alá não é obrigado — sobre um menino soldado nas guerras da Libéria e Serra Leoa) e sou colecionador de música africana, pop e tradicional, e de música cubana, que, como a nossa, dialoga o tempo todo com o “continente negro”. Adoro Papa Wemba e os mestres griôs do kora (uma espécie de harpa com cabaça), Ali Farka Toure, Baaba Maal, King Sunny Ade, Mayra Andrade, Remmy Ongala, Cesaria Evora, Boy Gê Mendes e tantos outros.

Mas, voltando ao assunto, num artigo hoje clássico — chamado Raça e História, publicado pela ONU —, e que foi uma resposta científica às teorias racistas da linhagem teórica de Gobineau (para quem, diga-se de passagem, a degenerescência estava na mestiçagem), Lévi-Strauss chama a atenção para o seguinte: “Quando procuramos caracterizar as raças biológicas através de propriedades psicológicas particulares, afastamo-nos da verdade científica, quer definindo-as positivamente, quer negativamente.”

Lévi-Strauss ressalta que as raças se contam nos dedos, ao passo que as culturas e etnias são milhares. E mais:

(...) quando falamos, neste estudo, de contribuição de raças humanas à civilização, não queremos dizer que as contribuições da Ásia ou da Europa, da África ou da América, retirem uma originalidade qualquer do fato de que estes continentes são, grosso modo, povoados por habitantes de troncos raciais diferentes. Se esta originalidade existe — e não se deve duvidar dela — deve-se a circunstâncias geográficas, históricas e sociológicas, e não a aptidões distintas, ligadas à constituição anatômica ou fisiológica de negros, amarelos ou brancos.

É dessa forma que entendo a noção de negritude de Nei. Uma cultura particular que é resultado da consciência histórica, geográfica e sociológica do negro brasileiro numa relação dialética e crítica com a ideologia racial do país, e não uma mera característica racial biológica. Essa diferenciação é importante, pois sua confusão pode realimentar os argumentos racistas de Gobineau, dos traços oriundos das purezas das raças, argumentos esses que estão na base ideológica do nazismo, por exemplo.


O escritor Marcelo Moutinho inaugurou essa semana o site oficial

Para encerrar (o Pindorama está ficando acadêmico demais, não é mesmo?), quero avisá-los que meu querido amigo e compadre Marcelo Moutinho, que é escritor e jornalista, está de casa nova. Ele acaba de inaugurar o seu site oficial, já linkado aí ao lado (procurem em links ou cliquem diretamente aqui). Vale muito a pena navegar por aqueles mares. Lá vocês encontrarão sua prosa deliciosa, dados biográficos, seu blog Pentimento, resenhas literárias e muito mais.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

O cosmopolitismo da alma selvagem brasileira

Fui atravessado estes dias por um ensaio maravilhoso do renomado etnólogo Eduardo Viveiros de Castro, chamado A inconstância da alma selvagem. Castro é um especialista na vida e costumes dos índios brasileiros e um dos nomes mais respeitados em todo o mundo no que se refere à etnologia indígena, o ramo da antropologia considerado por muitos o coração da disciplina.


Menina karajá, na aldeia da Ilha do Bananal, divisa entre Tocantins e Mato Grosso (1987)

No ensaio, que tem um caráter mais filosófico do que etnográfico, Castro examina as cartas de jesuítas e outros missionários, inclusive o padre Antonio Vieira, relatando os primeiros encontros entre os europeus navegantes e a gente de Pindorama. Num primeiro momento, aponta o etnólogo, os religiosos são tomados por um grande otimismo, diante da total docilidade com que os nativos se deixam catequizar.

Acostumados a impor o cristianismo a ferro e fogo em mouros, judeus e outros povos que iam dominando, e que só torturados renunciavam a seus deuses e costumes pagãos, os padres da Companhia de Jesus foram surpreendidos pela forma entusiasmada com que tamoios, tupinambás e outros nativos brasileiros se convertiam à fé católica, ajoelhando-se nas igrejas recém-erguidas e implorando aos padres que intercedessem por suas almas em suas orações.

Logo, no entanto, o otimismo dos jesuítas se desfez no mais amargo desânimo. As cartas à Coroa Portuguesa deixam claro a má opinião que os religiosos passaram a deitar sobre os indígenas de Pindorama. Eles aceitavam a nova fé, mas bastava os missionários virarem as costas e eles voltavam a seus costumes, bárbaros no entender europeu, isto é, a volúpia sexual, o ócio, a poligamia, as guerras e o canibalismo. Vejam só, por exemplo, o que o Padre Vieira escreveu sobre eles, em 1549, fazendo uma analogia entre as estátuas de mármore e de murta:

“(...) Há umas nações naturalmente duras, tenazes e constantes, as quais dificilmente recebem a fé e deixam os erros de seus antepassados; resistem com as armas, duvidam com o entendimento, repugnam com a vontade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão grande trabalho até se renderem; mas uma vez rendidas, uma vez que receberam a fé, ficam nela firmes e constantes, como estátuas de mármore: não é necessário trabalhar mais com elas. Há outras nações, pelo contrário — e estas são as do Brasil — que recebem tudo o que lhe ensinam com grande docilidade e facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir; mas são estátuas de murta que, em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo perdem a nova figura, e tornam à bruteza antiga e natural, e a ser mato como dantes eram (...)”.

A inconstância da alma selvagem a que se refere Castro no título de seu ensaio (e livro) diz respeito exatamente a essa suposta docilidade na incorporação dos valores culturais estrangeiros, mas que são introjetados de forma particular, à maneira muito própria, integrando-se aos valores originais num processo de simbiose particular e pessoal. Essa inconstância, que aos olhos dos jesuítas acabou se tornando o pior tipo de resistência à fé católica, é o que inspirou Oswald de Andrade em seu movimento antropofágico, pois o canibalismo pode ser visto como uma síntese desse processo de choque cultural: os nativos de Pindorama devoram o estrangeiro, absorvendo muito de sua cultura estranha, mas incorporando apenas aquilo que lhes interessa e ao qual dão a forma que melhor lhes convêm.


Criança na Freguesia do Andirá (AM), comunidade próxima a Barreirinha, região dos índios maués (1992)

Oswald lembra que o ato de devorar o outro era, acima de tudo, uma demonstração de respeito, pois só era devorado aquele tinha valor e coragem. E o indígena que o comia incorporava esses valores e recebia o nome daquele que comera. Era, portanto, também um ritual de renascimento. Interessantes os versos que Oswald cita de um poeta modernista, e que dão bem a dimensão do encontro detalhado por Vieira em suas cartas:

"Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio.
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio teria despido
O português."

Mas, voltando ao texto de Viveiros de Castro, o antropólogo vai mais fundo na análise desse choque de civilizações tão distintas, chamando a atenção para o fenômeno da resistência cultural presente na sociedade européia (e que certamente herdamos em boa medida de nossos antepassados portugueses). Nessa visão, a cultura é algo que se deve defender de ataques externos, alienígenas. Do contrário, perderemos nossa alma. Vejam o que diz Castro em seu ensaio, retomando a analogia feita por Vieira:

“Nossa idéia corrente de cultura projeta uma paisagem antropológica povoada de estátuas de mármore, não de murta: museu clássico antes que jardim barroco. Entendemos que toda sociedade tende a preservar seu próprio ser, e que a cultura é a forma reflexiva deste ser; pensamos que é necessário uma pressão violenta, maciça, para que ela se deforme e transforme. Mas, sobretudo, cremos que o ser de uma sociedade é o seu perseverar: a memória e a tradição são o mármore identitário de que é feita a cultura. Estimamos, por fim, que, uma vez convertidas em outras que si mesmas, as sociedades que perderam sua tradição não têm volta. Não há retroceder, a forma anterior foi ferida de morte; o máximo que se pode esperar é a emergência de um simulacro inautêntico de memória, onde a ‘etnicidade’ e a má consciência partilham o espaço da cultura extinta.”

É verdade que pensamos assim. Outro dia, li no blog Buteco do Edu um relato sobre a emoção do Simas, se a memória me serve, ao se deparar com um letreiro de néon, típico dos anos 50, em plena Tijuca carioca. Essa saudade — e não é a toa que o termo só exista em português, pois saudade não se refere a uma mera nostalgia, mas a um sentido poderoso, profundo, primitivo e irracional de perda — que atingiu o mestre Simas, por sua sensibilidade urbana, é o exemplo vivo dessa noção de que a cultura é algo a preservar, mas que, ao mesmo tempo, invariavelmente vai mudando, se transformando continuamente.


Castelo e burro no coração da França: paisagem da melancolia européia (2003)

Mas, segundo Viveiros de Castro (e esse é um dos pontos centrais de seu ensaio), o índio não tem esse traço de forma tão marcante. O grande barato de sua cultura é o seu aspecto relacional, sua abertura e curiosidade, na falta de um termo melhor, em relação ao outro, ao estrangeiro. Ele existe e constrói sua identidade a partir da relação com o outro — o outro com quem se alia ou com quem entra em guerra. As sociedades indígenas, nessa visão, não são autocentradas, auto-referidas; elas precisam do outro para existir (como, de resto, todas as sociedades humanas, mesmo aquelas que se desenvolvem em torno do próprio umbigo). De novo, vejam o que diz o autor:

“Talvez, porém, para sociedades cujo (in)fundamento é a relação aos outros, não a coincidência consigo mesmas, nada disso [essa ânsia, digamos, de preservação] faça sentido.”

Lembrei do índio do Xingu que veste o short Adidas e, com isso, deixa muita gente preocupada, como se aquela indumentária fosse a porta de entrada do vírus mortal: o invasor branco ocidental (e ainda por cima uma multinacional). Mas, como a murta, a forma cultural que ele dá ao short, ao usá-lo do seu jeito, a partir de seus valores e percepções, o deixa muito mais resistente e protegido do que se estivesse isolado no coração da Amazônia sem o contato com o outro. Pois, sem a alteridade é que a identidade é de fato ameaçada.

E nós, que herdamos do português essa melancolia lírica e poética, que pode ser resumida na palavra saudade, também recebemos dos índios, na veia, essa tendência a existir a partir da relação com o outro, e tão intensamente, a ponto de querer devorá-lo (algumas vezes concretamente). Assim, trazemos em nós, a meu ver, todos esses elementos (e nem mencionei aqui a poderosa herança negra na nossa identidade, para retornar ao mito das três raças), algumas vezes contraditórios, mas que nos obrigam a ser extremamente cosmopolitas num sentido bem íntimo, pois nos empurra para o mundo. E, ao mesmo tempo, provincianos, desconfiados de toda idéia que vem fora, mas não radicalmente refratários, como o são muitas civilizações consideradas desenvolvidas.

Com tais heranças, construímos uma alma realmente singular e que, nesses dias de globalização, nos faz entrar em contato com o mundo cheios de uma fome antropofágica. Só nos resta desejarmos a nós mesmos um bom apetite...