Entrei no universo de
Nei Lopes a primeira vez pelas mãos de
Manduka, não me lembro exatamente quando, mas devia ser em meados dos anos 80.
Manduka me disse com um sorriso maroto: “Escute esse samba!”. E eu ouvi
Luxuosos transatlânticos, descobrindo a fina ironia, que é o estilo que marca tanto a produção musical e poética de
Nei, como sua outra vertente de homem brilhante, que só descobri mais tarde: a do intelectual e ensaísta, responsável pelo mapeamento das origens africanas do negro brasileiro, e um importante e cultuado militante do movimento negro.
Nei é um homem sábio e quem quiser beber mais de suas palavras pode encontrá-lo em seu blog
Meu Lote (link ao lado) ou clicando diretamente
aqui.
Este é o logo do blog Meu Lote, de Nei LopesNa última quinta-feira, ele escreveu um artigo na página de Opinião do
Globo, intitulado
Brasil, berço dos imigrantes, muito pertinente, sobre os grupos europeus, sobretudo italianos, que foram incentivados a vir para o Brasil para embranquecer o país. Ele lembra, num texto riquíssimo, que o Brasil continua sendo o berço desses imigrantes e seus filhos, mas se esquece daqueles outros imigrantes forçados, que vieram para cá, capturados por traficantes humanos. Ele destaca a importância da noção de
negritude, como forma de consciência cultural para escapar aos estereótipos sociais designados para o negro em nossa sociedade, sejam esses papéis positivos, como no caso do artista talentoso ou do jogador de futebol habilidoso, ou negativos.
A questão do racismo no Brasil é hoje um tópico que está de novo em ebulição, num momento em que se discute, por exemplo, o problema das cotas. E, como não poderia deixar de ser, é assunto de complexa reflexão e de difícil digestão, do ponto de vista tanto sociológico como psicanalítico, pois mexe com uma noção de identidade forte na constituição do que, afinal, é ser brasileiro.
A discussão das cotas para acesso à universidade dividiu os acadêmicos e intelectuais e o assunto é nitroglicerina pura. Outro dia, por exemplo, na redação do
Globo, expus minha opinião sobre o tema, afirmando que, embora reconheça a enorme dívida social e histórica que a nação brasileira tem para com seus filhos negros, prefiro um sistema de cotas sociais, em que são levadas em conta as condições materiais das pessoas que pleiteiam vagas. Disse isso pensando que uma cota social seria mais abrangente do que uma racial, englobando, por exemplo, o migrante nordestino de pele clara que não tem recursos para fazer uma faculdade. E acrescentei que uma cota social, desde que honestamente distribuída, teria forçosamente uma maior incidência de beneficiados negros, uma vez que são maioria nos segmentos da população que durante séculos foram e são marginalizados e oprimidos no país. Pronto. Fui chamado de alienado e até de racista.
Na academia tampouco consegui discutir o assunto de forma meramente reflexiva. Fala muito ao coração das pessoas e o tom da conversa vai subindo até virar uma discussão agressiva, em que a argumentação dá lugar à defesa de posições ideológicas. Bem, com tanta opressão e tendo a escravidão como passado histórico recente, não poderia ser de outra forma. O Brasil é racista de uma forma muito particular e insidiosa. A segregação, que nos Estados Unidos, por exemplo, é física e explícita, aqui é mais simbólica (embora se materialize o tempo todo em resultados pragmáticos perversos) e muito mais difícil de ser percebida e combatida. Ela é introjetada no imaginário das pessoas, camuflada num discurso de igualdade de raças, e diabolicamente eficaz na sua preservação.
Por outro lado, o artigo do
Nei fala, em determinado momento, que os ancestrais do negro brasileiro foram trazidos à força, ”caçados como bichos, sim, por europeus ‘tango-maus’, e, também, sabemos, por africanos corrompidos, colaboracionistas (...)”. Essa frase me chamou a atenção para um aspecto dessa discussão, que considero importante.
Papa Wemba, rei da rumba africana, um pop maravilhoso e contagiante
Como qualquer brasileiro, aprendi a ver o mundo em termos de raças. A Antropologia, no entanto, abriu um leque para mim, inserindo nesse caldeirão culturas, grupos étnicos, nações etc. Enfim, complexificou o meu olhar e com isso me permitiu refletir melhor sobre nuances. A África sempre foi o continente negro, da raça negra, e essa idéia homogeneizante e higienizante, num sentido de um pureza racial, nos deixa perdidos em certa obscuridade sobre as ricas, e às vezes violentas, diferenças culturais que existem por lá. Onde vemos uma raça negra única, os africanos vêem milhares de grupos étnicos, com suas culturas particulares, suas diferenças, suas trocas e seus conflitos.
Hutus que odeiam
tutsis em Ruanda,
peuls que convivem lado a lado com
griôs no Mali e no Senegal; grupos que são muçulmanos, outros que rezam para os Orixás, e por aí vai.
Enfim, conheço muito pouco sobre o continente para deitar falação, apenas alguma coisa de sua literatura fantástica (o
Ahmadou Kouruma, da Costa do Marfim, com sua saga
En attendant les votes des bêtes sauvages, que foi comparada a
Cem anos de solidão, e um livro traduzido para o português, cujo título não me lembro — é algo como
Alá não é obrigado — sobre um menino soldado nas guerras da Libéria e Serra Leoa) e sou colecionador de música africana, pop e tradicional, e de música cubana, que, como a nossa, dialoga o tempo todo com o “continente negro”. Adoro
Papa Wemba e os mestres
griôs do
kora (uma espécie de harpa com cabaça),
Ali Farka Toure,
Baaba Maal,
King Sunny Ade,
Mayra Andrade,
Remmy Ongala,
Cesaria Evora,
Boy Gê Mendes e tantos outros.
Mas, voltando ao assunto, num artigo hoje clássico — chamado
Raça e História, publicado pela ONU —, e que foi uma resposta científica às teorias racistas da linhagem teórica de
Gobineau (para quem, diga-se de passagem, a degenerescência estava na mestiçagem),
Lévi-Strauss chama a atenção para o seguinte: “Quando procuramos caracterizar as raças biológicas através de propriedades psicológicas particulares, afastamo-nos da verdade científica, quer definindo-as positivamente, quer negativamente.”
Lévi-Strauss ressalta que as raças se contam nos dedos, ao passo que as culturas e etnias são milhares. E mais:
(...) quando falamos, neste estudo, de contribuição de raças humanas à civilização, não queremos dizer que as contribuições da Ásia ou da Europa, da África ou da América, retirem uma originalidade qualquer do fato de que estes continentes são, grosso modo, povoados por habitantes de troncos raciais diferentes. Se esta originalidade existe — e não se deve duvidar dela — deve-se a circunstâncias geográficas, históricas e sociológicas, e não a aptidões distintas, ligadas à constituição anatômica ou fisiológica de negros, amarelos ou brancos.
É dessa forma que entendo a noção de
negritude de
Nei. Uma cultura particular que é resultado da consciência histórica, geográfica e sociológica do negro brasileiro numa relação dialética e crítica com a ideologia racial do país, e não uma mera característica racial biológica. Essa diferenciação é importante, pois sua confusão pode realimentar os argumentos racistas de
Gobineau, dos traços oriundos das purezas das raças, argumentos esses que estão na base ideológica do nazismo, por exemplo.
O escritor Marcelo Moutinho inaugurou essa semana o site oficial
Para encerrar (o
Pindorama está ficando acadêmico demais, não é mesmo?), quero avisá-los que meu querido amigo e compadre
Marcelo Moutinho, que é escritor e jornalista, está de casa nova. Ele acaba de inaugurar o seu site oficial, já linkado aí ao lado (procurem em links ou cliquem diretamente
aqui). Vale muito a pena navegar por aqueles mares. Lá vocês encontrarão sua prosa deliciosa, dados biográficos, seu blog
Pentimento, resenhas literárias e muito mais.