quarta-feira, 28 de março de 2007

Saara, um bazar no Rio de Janeiro


O cavalete amarelo marca os limites físicos entre o Saara e o Camelódromo

Ao cruzar os limites marcados pelos cavaletes amarelos que separam o Camelódromo do Saara, no Centro do Rio — limite muito mais simbólico do que concreto —, percebe-se nitidamente que estamos em outro domínio, onde as etiquetas e as formas de agir são governadas por moralidades distintas, introjetadas de tal forma no nosso inconsciente que nem nos damos mais conta de sua força. O clique é automático.


Visto de cima, o Camelódromo, com os telhados azuis, e o Saara, com os sobrados de telha

Aos olhos dos mais distraídos e sobretudo daqueles que temem se misturar ao povo, ambos mercados parecem apenas uma grande confusão, o caos instalado na cidade, alvo perfeito para campanhas moralizantes, como Ilegal, e daí, do Globo. No Camelódromo, o abuso que escapa à miopia preguiçosa das autoridades (in)competentes. No Saara, a profusão de mercadorias baratas para quem não tem dinheiro. No entanto, aqueles com aguda sensibilidade urbana rapidamente se dão conta do rico universo que ambos mercados, lado a lado, estabelecem.


O cenário do Saara, com o display sedutor de marcadorias a preços baixos

Qualquer antropólogo sabe que o mercado, qualquer que seja, é um dos melhores lugares para se apreender a alma de uma cultura. Pois não se trata apenas de um lugar onde se compra e vende mercadorias e serviços. É sobretudo um lugar onde se aprende e apreende valores e visões de mundo, e onde moralidades distintas entram em choque. Arena onde a confiança e a desconfiança traçam fronteiras entre grupos, clientes e comerciantes. Onde se estabelecem redes de solidariedade diante das autoridades etc e tal.


Clientes no Saara examinam as mercadorias expostas de variadas formas

No Camelódromo, a informalidade deu lugar a um estruturado organismo, que se transformou num centro irradiador de comércio ambulante. Os camelôs que têm barracas ali, têm sócios que fazem a chamada camelotagem de pista, isto é, pegam ali as mercadorias e as vendem nas ruas periféricas do Centro, ampliando o alcance do barraqueiro. De tudo um pouco há por ali, inclusive produtos piratas ou de origem duvidosa. O preço baixo, porém, leva um grande contingente a circular por suas apertadas alamedas, próximas à saída do Metrô. E, conquanto sejam todos legalizados, sobre esses comerciantes pesa o estigma da informalidade e da relação com máfias diversas.


Uma esquina do Saara, vista do céu...

Contíguo ao Camelódromo está o Saara, o mercado oriental, o suq (mercado em árabe), o bazar (mercado em persa), com evocações do grande deserto no Norte da África e do Oriente Médio, mas também o shisheng (mercado em chinês mandarim). Trata-se de ma região moral, no sentido antropológico. Além de mercado, é também um reduto de imigrantes sírios e libaneses cristãos, judeus sefaraditas e asquenazins, armênios, portugueses, espanhóis e, mais recentemente, asiáticos, sobretudo chineses do continente e sul-coreanos, que ali foram se instalando ao longo do século passado.


O Saara no Natal, o período mais importante do calendário comercial

Com exceção de um vendedor de café e um ou outro engraxate, não há no Saara um camelô sequer, ambulante ou de barraca. Uma equipe de segurança, composta por cerca de 40 pessoas, tornou o Saara o lugar com menor índice de roubos e furtos do Centro da cidade. E isso é uma característica exclusiva desse mercado, garantida pela associação local, a Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega (S.A.A.R.A.).


Já no carnaval, a criatividade dos comerciantes se liga às notícias de jornais

Caminhar pelo Saara carioca é exercitar todos os sentidos da alma. Nas ruas estreitas, apinhadas de gente de todos os tipos, os ouvidos são impregnados pela rádio que, anuncia os produtos em oferta, em pequenos enredos dramatizados. A rádio, no entanto, não substitui a velha arte do pregão do vendedor à porta das exíguas lojas. O humor, as rimas e a sonoridade das frases entoadas são cativantes.


A igreja de São Jorge, no dia do Santo guerreiro, uma das datas religiosas mais importantes do Saara

Visualmente, é um festival de cores e volumes, quase tão variados quanto os produtos em exposição. De brinquedos a charutos, de comida a tecidos, de jóias a material de ótica, há de tudo no Saara. Os olhos se perdem ante tanto estímulo. Para o paladar, o lugar também é um prato cheio, com o perdão do trocadilho. Sobretudo para quem aprecia a excelente comida árabe. Eu particularmente adoro as entradas, o haba hanushi (pasta de beringela), e o húmus tahine (grão de bico), com pão árabe.


Ofertas de produtos variados atraem ao Saara uma média de 80 mil pessoas diariamente durante a semana e 150 mil no sábado

O mercado também guarda um festival de aromas, que vão se transformando à medida que os passos avançam: os cheiros que vêm das lojas; do tabaco; dos incensos de Bali; os queijos de Minas; o bacalhau seco e os milhares de condimentos das casas árabes, como o cominho, a canela, e variadas especiarias.

As lojas ficam em sobrados que, no passado, abrigavam as famílias dos comerciantes no segundo andar. E família extensa, que ia recebendo tios e primos da Síria, do Líbano e outros lugares e se instalavam ali. Desciam no cais e já seguiam pela rua da Alfândega até o Saara, de onde raramente saíam. Muitos deles vieram fugindo da expansão do império turco-otomano e chagavam aqui com passaporte turco. Por isso, eram chamados de turcos.

Em 1962, o governo quis derrubar o casario do Saara para construir a avenida Diagonal, que ligaria a avenida Presidente Vargas à Lapa. Os comerciantes se organizaram, fundaram a S.A.A.R.A. e conseguiram impedir o que seria mais uma intervenção urbanística planejada e executada de cima para baixo. A criação da associação também marcou a passagem de comércio atacadista para varejista, o que mudou completamente o tipo e o fluxo de clientes.


Um passeio pelo Saara é um exercício de carioquice

Hoje, o Saara é um dos mercados mais interessantes entre tantos que existem no Rio de Janeiro.



sábado, 24 de março de 2007

A crítica à crítica diluída

Meu amigo e orientador, Marco Antonio da Silva Mello, uma pessoa de alma clara e mente iluminada, comentava numa aula as diferenças entre resenha, súmula, resumo, artigo, fichamento e outras formas de leitura especializada de texto, segundo as formalidades da literatura e das ciências. O assunto era outro e a menção dessas variadas formas era apenas um longo parêntesis aberto, bem ao gosto do mestre. Mas, hoje, ao ler a crítica do poeta e artista plástico Renato Rezende, no Prosa & Verso do Globo, ao livro A musa diluída, de Henrique Rodrigues (editora Record), pensei nas palavras do Mello.

Confesso que levei um susto, porque a resenha é negativa e eu gostei muito do livro de Henrique. Até posso compreender os argumentos de Resende, mas não acho que eles sejam o aspecto central da obra do jovem poeta e aí me soa um tanto cruel e desnecessário enfocar na crítica um aspecto mais filosófico, ou estético, que se refere mais à postura do escritor, do que propriamente à sua literatura. Lembrei daquelas bancas de mestrado e doutorado, em que o argüidor critica o trabalho do aluno dizendo que ele não abordou tal ou qual linha de pensamento ou não usou tal ou qual autor, em vez de direcionar sua crítica ao trabalho que está em suas mãos.

O título do artigo no Prosa & Verso —A dissolução de todas as coisas — faz menção evidente ao título do livro de Henrique. Mas o subtítulo, que tem a função de esclarecer ou aprofundar a idéia da manchete, diz: “O estreante Henrique Rodrigues tem postura distanciada do tema que aborda”. Confesso, caros amigos, que continuei na obscuridade, apesar da suposta clareza da frase. O que se quis dizer? Que o poeta escreveu sobre a musa de forma fria?

Segundo Mello, a resenha é um texto em relação a uma obra, em que o seu autor destaca um elemento específico do trabalho analisado que seja de seu interesse particular. Assim, a crítica de Resende é de fato uma resenha no sentido formal. Mas ao puxar a leitura do livro para um aspecto singular, do interesse, digamos, engajado do autor da crítica — que na verdade está interessado numa discussão sobre a situação da poesia no Brasil, que rola no site As escolhas afectivas —, ele deixa de lado, ao meu ver, a qualidade essencial da poesia de Henrique, que trabalha muito bem as formas poéticas e dá ao lirismo do texto um certo comedimento, bastante compreensível em se tratando de um poeta da geração forjada nos anos 80-90, período em que tudo pareceu se desmanchar em diluições de diluições de diluições...


A capa do livro de Henrique

Resende bate. Diz, por exemplo, que, “em A musa diluída, quem se encontra diluída não é a musa, mas a poesia”. É uma acusação grave, considerando-se que se trata de um poeta. Mais à frente, Resende tenta esclarecer sua crítica: “(...) não há casamento essencial, originário, entre o que é dito e sua forma, e os poemas de Henrique, não logrando ser uma coisa entre outras no mundo, ou melhor, ente irredutível, enfraquecem-se em mera representação, em discurso.” Taí uma crítica difícil de responder e que, me parece, cai num subjetivismo complexo, pois o crítico não se refere ao domínio e uso por Henrique de formas poéticas clássicas, como o soneto e versos em redondilhas, além do verso livre. Então, que “forma” é esta que se descasa do que é dito?

Resende se esforça mais uma vez para explicar o que quer, afinal, dizer: “o problema parece estar numa postura distanciada do poeta em relação ao tema, ou melhor, numa não incorporação e experiência real de sua linguagem; em uma postura herdada de grandes poetas que vieram antes — no caso, Drummond, Bandeira, Pessoa e João Cabral.” Se entendi corretamente, Resende quer dizer que Henrique escreveu seus versos inspirado na obra de poetas consagrados, mas sem ter vivenciado a energia vital que Bandeira e cia. experimentaram em sangue e vísceras e, por isso, os versos de Henrique estão descasados da experiência concreta do real. São frutos de inspiração patafisica e distantes das situações de vida. No fim de seu texto, Resende deixa implícita a idéia de que Henrique, ao homenagear seus poetas preferidos, estaria imitando-os e se tornando um sub-Bandeira, um sub-Drummond e por aí vai.

O que me inquieta nesse tipo de crítica é o seu aspecto arbitrário, pois o crítico, como árbitro, escolhe o campo da discussão que pretende levantar, mesmo que o texto em questão não tenha, na origem, se proposto a esse exercício. Então, até por uma postura ética, cabe ao resenhista ter o cuidado na maneira como destaca aquilo que quer ressaltar, sob o risco de ser, no mínimo, injusto. Na verdade, me parece haver uma distorção. Em primeiro lugar, Henrique não fez seus poemas exclusivamente inspirados e em homenagem aos poetas que admira, reduzir seu livro a isso é um exagero. E nos versos em que tal conexão existiu há profunda poesia, pois não acho que o poema que homenageia e se constrói mais ou menos explicitamente da inspiração e da influência de outros trabalhos seja “descasado” da experiência, ou que tal experiência seja de segunda classe.

Vejam, por exemplo, a homenagem que Henrique faz a Bandeira — chamada de Gazal para Bandeira — e me digam se há neste poema uma poesia de segunda classe:

Vê Bandeira, eu também fiz
Um gazal. Não ao Hafiz,

Mas a ti, que dizes versos
Como só um gigante diz.

Doente, foste privado
Dos amores juvenis;

Disseste: “Vou pra Pasárgada,
Aqui eu não sou feliz.”

Quiseste uma estrela alta
E fria, que a ti não quis.

Mas na obra que deixaste
Habitam paixões sutis,

Mais eternas que as estrelas.
Nela, Bandeira, sorris.

Não creio que exista a originalidade que Resende busca. Ou melhor, ela existe, mas em outro lugar. Não está presa ou circunscrita à criação de linguagens e formas inéditas de expressão, e muito menos restrita à tradução de experiências próprias do escritor. Aliás, essa é uma discussão velha e ultrapassada. É pena voltar a ela, metendo o pau num trabalho que é muito bom.


Camaleoa e o seu Café Literário

Ainda sobre poesia, quero mencionar aqui a produção sobre literatura, jornalismo literário (gonzo) e poesia que traz o jornal Café Literário, número 29 (janeiro e fevereiro de 2007), de São Paulo, do qual participa minha amiga Camaleoa. É mais uma prova do formigamento poético que há por aí.

domingo, 18 de março de 2007

A poesia mantém seu sortilégio


Ferreira Gullar durante um evento público, falando sobre poesia: casa lotada

A poesia está morrendo? É esta a provocação que Nelson Arscher fez há algumas semanas na Folha de S. Paulo. A pergunta, que parece destituída de sentido num primeiro momento, é pertinente como provocação reflexiva. Especialmente pela repercussão que teve por aí. Marcelo Moutinho, por exemplo, que escreve prosa e é autor do recém-lançado Somos todos iguais nesta noite, fez um post no Pentimento sobre o artigo e acrescentou à provocação de Arscher a idéia, sem necessariamente concordar com ela, de que a produção da poesia contemporânea está dentro de um ciclo muito fechado, no qual os poetas produzem para si próprios, esquecendo do leitor. Aquela coisa auto-referenciada e ególatra. Já Pedro Markun levou o tema para o seu Jornal de Debates. E ainda, num artigo publicado no sábado retrasado no Prosa & Verso, do Globo, o poeta Henrique Rodrigues, autor do excelente A musa diluída, também fez referência ao artigo de Arscher, ao resenhar o trabalho de quatro jovens poetas, que chegaram agora às livrarias pela editora 7 Letras.


Thiago de Mello recitou no Circo Voador, num evento poético que durou dois dias

Num comentário ao post de Marcelo, disse ao meu amigo que, para mim, a poesia pulsa forte pelo país afora e a idéia de que esteja morrendo é completamente absurda para quem circula pelas feiras e mercados de Recife, pelos bares da Manaus, Campo Grande e Porto Alegre e por aí afora. E a idéia de que ela se dá apenas num ciclo fechado de entendidos e especialistas também se evapora ao se observar os inúmeros movimentos poéticos que existem no país, com suas respectivas publicações. De concretistas e tropicalistas a poetas sem bandeira; marginais ou com editores, a produção de poesia segue firme e a todo vapor, e com um público surpreendentemente jovem.


Ana Cristina Cesar, morta precocemente, é poeta da trágica geração de 70

No fim do ano passado, o Circo Voador fez um evento de fôlego que durou dois dias. O CEP 20.000 do Chacal, poeta da geração marginal dos anos 70, reúne, é verdade que sem muito critério crítico, uma grande produção de poetas muitos novos. São recitais e performances misturados à música e ao teatro, nos quais muita gente boa aparece. Pessoas que idolatram poetas da trágica geração de 70, como Ana Cristina Cesar, Paulo Leminski e Torquato Neto, todos mortos precocemente. Eu acrescentaria ao grupo, Manduka, músico, pintor, ator e poeta. Ao homenagear o querido poeta Francisco Espinhara, alguns posts abaixo, mencionei o movimento Pessimista, que ele fundou no Recife. Lá encontrei poetas que fazem revista online e publicam jornais de poesia. A Camaleoa acaba de me enviar o jornal Café Literário, de São Paulo, com poesia de qualidade. Em Manaus, Aníbal Bessa coordena eventos poéticos reunindo várias gerações. E por aí afora. Os exemplos são vários. Outro dia conversava com o poeta Sadi Bianchi a idéia de fazer uma edição especial com poetas independentes de todo o Brasil.


Bandeira e seus becos em Recife e na Lapa carioca

Quem vê um poeta como Erikson Luna recitando num mercado a céu aberto no Centro velho de Recife, terra de Manuel Bandeira, dificilmente poderá concordar com a provocação de Arscher. A poesia continua na praça, como queria Castro Alves. Mas é preciso sair por aí, mergulhar na cidade, para vê-la. Os livros são apenas uma parte dessa realidade. É impossível contabilizar o número de leitores de poesia, nem mesmo pelos dados estatísticos de vendas das editoras, pois a queda na comercialização de livros decorre muito mais de políticas equivocadas de editoras voltadas para o best-seller e a auto-ajuda do que de uma ausência de interesse do leitor. Acredito que se os editores fossem mais inteligentes, redescobririam o filão da poesia.


A produção poética de Manduka é uma das várias vertentes de artista neorenascentista

Onde há poeta recitando, há público. E público heterogêneo, de todas as cores, idades e gêneros, ou simplesmente pessoas que estão por aí ávidas de poesia em suas vidas. Se Nelson Arscher sair de sua biblioteca e circular por aí, em qualquer canto da cidade, ele poderá se surpreender ao esbarrar num poeta e quem sabe até perceber a estreita relação de encantamento que a poesia continua exercendo em todo tipo de alma.


Leminski, entre Caetano Veloso e Moraes Moreira, outro poeta genial, e autor do Catatau

sexta-feira, 16 de março de 2007

Dri Duval, enfim, nos dá o ar de sua graça


Dri e riem, riem e riem.... como todos os jogadores de xadez....

Fim de semana passado deu-se o encontro que pôs, digamos assim, carne e sangue na relação de afeto e admiração, até então virtual, que mantinha com Dri Duval, do blog É o que dizem... (link ao lado). No encontro, Soraya e eu, depois de um tour por Nikiti, apresentamos a essa paulistana de inteligência singular um dos melhores botecos do mundo, o Decolores, em Portugal Pequeno. Ainda convalescendo e com os bolsos um tanto vazios, acompanhei devagarinho as duas belas moçoilas. Vejam alguns registros do dia.


No MAC, olhando para Icaraí sob um sol de rachar

Dri é atriz, com trabalhos em teatro e comerciais de TV. Eu sou fã de seu texto. Da qualidade, da fluidez e da sinceridade de suas palavras. Apresentar com Soraya a nossa Nikiti e o Rio, com direito a paseio de barca e o escambau, foi muito bom. Combinamos que o próximo encontro se dará em Sampa, seu território.


E, pra fechar o álbum, mais uma no Decolores, boteco de verdade

quarta-feira, 7 de março de 2007

Chico Espinhara

No dia 13 de fevereiro, o Brasil perdeu um de seus grandes poetas da atualidade. Conheci Francisco Espinhara em Recife, em 2004, num mercado popular de ar medieval, entre carnes penduradas, frituras, queijo coalho e tapioca, no Centro velho da cidade. Lá dividimos por horas a fio uma mesa com outros poetas da chamada poesia marginal (ou seja, à margem dos interesses comerciais das editoras) do Recife. Um sujeito doce, inteligente e que fez da tristeza um manancial de poesia.

Um dos criadores do movimento da poesia pessimista, no qual trazia uma discussão filosófica sobre o sofrimento como elemento transformador da vida, e um representante do altíssimo nível da poesia pernambucana contemporânea que tem ainda poetas como Erickson Luna e outros. No velho Pindorama, tive oportunidade de falar sobre eles e outros poetas que estão fora do eixo Rio-São Paulo, fazendo uma poesia viva e brilhante, interagindo com o público em praças públicas, feiras, orlas e onde se encontre gente. Graças a eles, a poesia é nesse mundão afora uma coisa viva e empolgante.


Espinhara num recital público, este ano, organizado pela turma da Interpoética

A turma da página eletrônica Intepoética fez uma homenagem ao poeta, que repoduzo abaixo:



Espinhara escreveu as linhas abaixo:

Epitáfio nº 529

Não vou a enterros.
Que o morto
Se guarde no que é seu.
Se incorro em erro,
Perdoem-me: irei ao meu.

Perispiritual

A gente muda
Se transmuda ao além.
Pega de um bonde
Sei lá nem onde
Sem proust nem pound
Sem nenhum vintém.

A gente muda
Dizendo - muito bem
Nenhuma bagagem
Nenhuma linguagem
Na treva do trem.

domingo, 4 de março de 2007

Convalescência

Amigos, enquanto convalesço, reproduzo abaixo um continho, ao estilo cronópio, dedicado a Manduka, chamado Dáte una vuelta en el aire. Há mais, para quem gosta, nas Mariposas. Também coloco um auto-retrado, com o perdão do surto narcísico (deve ser o efeito dos remédios), feito hoje, nesses tempos pós-cirurgia...



O Dr. Cornbloom era um ser um todo lunar. Caminhava pela terra a passos firmes, conquanto sempre em espiral. Vivia, por assim dizer, com os pés nas estrelas, assoviando canções que diziam coisas impositivas como: "dáte una vuelta en el aire". Quem o observasse mais atentamente perceberia uma constelação em suas palavras e aquela luz oblíqua nas idéias. Como de costume nessa estirpe de almas, era atraído por todos os tipos de silêncio, sobretudo o noturno, e em qualquer firmamento mais longínquo aquietava-se de contentamento. De tanto asozinhar-se, era dado como um sujeito taciturno, o que não correspondia de modo algum à realidade dos fatos, ainda que a realidade, fosse qual fosse, era sempre posta em dúvida pelo próprio Dr. Cornbloom em suas explosões silenciosas. Mas nesse caso, tais inferências de fato não tinham a ver com sua personalidade, pois o Dr. Cornbloom vivia lá seus momentos de folias e estripulias. Via a si próprio até mesmo como um boêmio, quiçá um sátiro nos seus melhores momentos, embora sempre permeado por um caráter romântico que com o tempo aderira à sua pele como uma cera protetora. Houve até quem o visse dançando um bolero. E, segundo tais relatos, conduzia sua dama com destreza e sem hesitação, apesar dos olhos afogados pelos enredos das canções de amores perdidos para sempre. Sendo como era, o Dr. Cornbloom fugia sempre que possível de pessoas solares e suas razões iluministas. Esse tipo de gente sempre lhe queimava as ponderações visionárias e o encantamento das incertezas. Estavam sempre a declarar verdades irrefutáveis e ele a lhes lançar dúvidas eternas. De modo que não combinavam e embora não fosse afeito a fugir de uma boa briga, o Dr. Cornbloom os evitava ao máximo, porque além de tudo costumavam ser muito enfadonhos. Ele preferia os ensombreados como ele, e não por identificação, pois embora afirme-se que no escuro todos os gatos sejam pardos, na verdade apresentam personalidades singularíssimas. De modo que nunca se reconhecia em seus pares. E adorava-os por isso. No entanto, nem sempre é possível esquivar-se de meteoros incandescentes, especialmente quando aparecem de surpresa nas brechas do tempo, equidistantes entre o dia e a noite, em formas sinuosas e curvilíneas. E nosso pobre Dr. Cornbloom, em pleno retorno de Saturno, viu-se traspassado pelo olhar moreno de uma ninfa. Num primeiro zás, pensou que enlouquecera, pois o canto de sereia instalou-se em sua cabeça e o silêncio partiu-se estilhaçado. Ela era o fogo, a labareda do dragão, e o Dr. Cornbloom entregou-se a ela, no inteiro, alçando um vôo por céus nunca dantes navegados em insuportável alegria. E à medida que aproximou-se daquele sol, a cera que lhe protegia, no peito, o coração derreteu-se e Cornbloom, não mais doutor de ciência alguma, caiu do espaço e morreu, feliz, de amor.