Meu amigo e orientador,
Marco Antonio da Silva Mello, uma pessoa de alma clara e mente iluminada, comentava numa aula as diferenças entre resenha, súmula, resumo, artigo, fichamento e outras formas de leitura especializada de texto, segundo as formalidades da literatura e das ciências. O assunto era outro e a menção dessas variadas formas era apenas um longo parêntesis aberto, bem ao gosto do mestre. Mas, hoje, ao ler a crítica do poeta e artista plástico
Renato Rezende, no
Prosa & Verso do
Globo, ao livro
A musa diluída, de
Henrique Rodrigues (editora
Record), pensei nas palavras do
Mello.
Confesso que levei um susto, porque a resenha é negativa e eu gostei muito do livro de
Henrique. Até posso compreender os argumentos de
Resende, mas não acho que eles sejam o aspecto central da obra do jovem poeta e aí me soa um tanto cruel e desnecessário enfocar na crítica um aspecto mais filosófico, ou estético, que se refere mais à postura do escritor, do que propriamente à sua literatura. Lembrei daquelas bancas de mestrado e doutorado, em que o argüidor critica o trabalho do aluno dizendo que ele não abordou tal ou qual linha de pensamento ou não usou tal ou qual autor, em vez de direcionar sua crítica ao trabalho que está em suas mãos.
O título do artigo no
Prosa & Verso —A dissolução de todas as coisas — faz menção evidente ao título do livro de
Henrique. Mas o subtítulo, que tem a função de esclarecer ou aprofundar a idéia da manchete, diz: “O estreante
Henrique Rodrigues tem postura distanciada do tema que aborda”. Confesso, caros amigos, que continuei na obscuridade, apesar da suposta clareza da frase. O que se quis dizer? Que o poeta escreveu sobre a musa de forma fria?
Segundo
Mello, a resenha é um texto em relação a uma obra, em que o seu autor destaca um elemento específico do trabalho analisado que seja de seu interesse particular. Assim, a crítica de
Resende é de fato uma resenha no sentido formal. Mas ao puxar a leitura do livro para um aspecto singular, do interesse, digamos, engajado do autor da crítica — que na verdade está interessado numa discussão sobre a situação da poesia no Brasil, que rola no site
As escolhas afectivas —, ele deixa de lado, ao meu ver, a qualidade essencial da poesia de
Henrique, que trabalha muito bem as formas poéticas e dá ao lirismo do texto um certo comedimento, bastante compreensível em se tratando de um poeta da geração forjada nos anos 80-90, período em que tudo pareceu se desmanchar em diluições de diluições de diluições...

A capa do livro de Henrique
Resende bate. Diz, por exemplo, que, “em
A musa diluída, quem se encontra diluída não é a musa, mas a poesia”. É uma acusação grave, considerando-se que se trata de um poeta. Mais à frente,
Resende tenta esclarecer sua crítica: “(...) não há casamento essencial, originário, entre o que é dito e sua forma, e os poemas de
Henrique, não logrando ser uma coisa entre outras no mundo, ou melhor, ente irredutível, enfraquecem-se em mera representação, em discurso.” Taí uma crítica difícil de responder e que, me parece, cai num subjetivismo complexo, pois o crítico não se refere ao domínio e uso por
Henrique de formas poéticas clássicas, como o soneto e versos em redondilhas, além do verso livre. Então, que “forma” é esta que se descasa do que é dito?
Resende se esforça mais uma vez para explicar o que quer, afinal, dizer: “o problema parece estar numa postura distanciada do poeta em relação ao tema, ou melhor, numa não incorporação e experiência real de sua linguagem; em uma postura herdada de grandes poetas que vieram antes — no caso,
Drummond,
Bandeira,
Pessoa e
João Cabral.” Se entendi corretamente,
Resende quer dizer que
Henrique escreveu seus versos inspirado na obra de poetas consagrados, mas sem ter vivenciado a energia vital que
Bandeira e cia. experimentaram em sangue e vísceras e, por isso, os versos de
Henrique estão descasados da experiência concreta do real. São frutos de inspiração patafisica e distantes das situações de vida.
No fim de seu texto,
Resende deixa implícita a idéia de que
Henrique, ao homenagear seus poetas preferidos, estaria imitando-os e se tornando um sub-
Bandeira, um sub-
Drummond e por aí vai.
O que me inquieta nesse tipo de crítica é o seu aspecto arbitrário, pois o crítico, como árbitro, escolhe o campo da discussão que pretende levantar, mesmo que o texto em questão não tenha, na origem, se proposto a esse exercício. Então, até por uma postura ética, cabe ao resenhista ter o cuidado na maneira como destaca aquilo que quer ressaltar, sob o risco de ser, no mínimo, injusto. Na verdade, me parece haver uma distorção. Em primeiro lugar,
Henrique não fez seus poemas exclusivamente inspirados e em homenagem aos poetas que admira, reduzir seu livro a isso é um exagero. E nos versos em que tal conexão existiu há profunda poesia, pois não acho que o poema que homenageia e se constrói mais ou menos explicitamente da inspiração e da influência de outros trabalhos seja “descasado” da experiência, ou que tal experiência seja de segunda classe.
Vejam, por exemplo, a homenagem que
Henrique faz a
Bandeira — chamada de
Gazal para Bandeira — e me digam se há neste poema uma poesia de segunda classe:
Vê Bandeira, eu também fizUm gazal. Não ao Hafiz,
Mas a ti, que dizes versosComo só um gigante diz.
Doente, foste privadoDos amores juvenis;
Disseste: “Vou pra Pasárgada,Aqui eu não sou feliz.”
Quiseste uma estrela altaE fria, que a ti não quis.
Mas na obra que deixasteHabitam paixões sutis,
Mais eternas que as estrelas.Nela, Bandeira, sorris.
Não creio que exista a originalidade que
Resende busca. Ou melhor, ela existe, mas em outro lugar. Não está presa ou circunscrita à criação de linguagens e formas inéditas de expressão, e muito menos restrita à tradução de experiências próprias do escritor. Aliás, essa é uma discussão velha e ultrapassada. É pena voltar a ela, metendo o pau num trabalho que é muito bom.

Camaleoa e o seu Café Literário
Ainda sobre poesia, quero mencionar aqui a produção sobre literatura, jornalismo literário (gonzo) e poesia que traz o jornal
Café Literário, número 29 (janeiro e fevereiro de 2007), de São Paulo, do qual participa minha amiga
Camaleoa. É mais uma prova do formigamento poético que há por aí.