Um beijo anônimo na ColomboA cidade, como dizia
Ezra Park, não é apenas um aglomerado de prédios e ruas, mas sobretudo os sonhos das pessoas que nela habitam. Esse imaginário citadino é algo que vai se transformando constantemente, sob influência dos mais diversos fatores. Para alguns, as mudanças aparecem como uma descaracterização irremediável de algum modelo nostálgico e ideal, que toma forma mais no imaginário do que na realidade concreta, tangido por lembranças, desejos e fantasias, que configuram, ou transfiguram, noções de uma urbanidade ideal, corroída pela voracidade do tempo, que a tudo transforma.
Mila na Adega Pérola
Assim, velhos sobrados dão lugar a condomínios auto-suficientes e distantes da vida nas calçadas; velhos pés-sujos se transformam em modernos botecos, com suas chopeiras importadas de São Paulo; e casas de pasto portuguesas, do início do século passado, simplesmente desaparecem, como a
Lisboeta, o
Penafiel, o
Bico Doce e tantos outros. É inevitável uma certa melancolia ao presenciar esses fenômenos urbanos incontroláveis e incontornáveis, pois essas transformações forçosamente nos lembram de nossa própria finitude, configurando aí um elemento psíquico-emocional poderoso, pois sabemos que vamos desaparecer tanto quanto esses velhos sobrados e suas maneiras de ser e estar na cidade.
Beijo roubado no Cervantes
Mas há também aqueles cuja nostalgia traz elementos patológicos e fetichistas. Idealizam um mundo que não viveram, mas do qual sentem uma saudade terminal e se engajam em exercícios retóricos preservacionistas, muitas vezes culminando em lágrimas emocionadas diante do que acreditam ser o último remanescente de um mundo belo, porém inexistente. Eu mesmo, meus amigos, devo confessar que me encaixo nesse perfil sentimental, misturando memória e desejo, como dizia
T. S. Eliot, em minha noção de passado.
Por trás da tulipa, no Aurora
O problema desses mergulhos um tanto sentimentalóides é que muitas vezes deixam a visão opaca e jogam sombra sobre as coisas do presente. Ao nos deslocarmos para o passado, esquecemos, por assim dizer, o presente e as coisas efervescentes e interessantes que ocorrem no aqui-agora. “Essa ocorrência silenciosa”, como dizia meu querido
Manduka, ao me descrever o sentido do adágio popular: “pega pra capar!”.
Flerte no Jobi
E uma das coisas que permanecem nas grandes cidades, como um emblema de uma identidade citadina e cosmopolita, são as infinitas formas que se configuram os impulsos boêmios. E, no Rio de Janeiro, o botequim é o cenário privilegiado dessas “ocorrências silenciosas”... Bem, na verdade, quase nunca silenciosas, mas vale a licença poética para encaixar o adágio
Mandukiano.

Sô, num pé-sujo de Gramado
Sim, é triste ver, por exemplo, o velho pé-sujo
Belmonte se transformar num arremedo do que foi no passado. Ver o suculento sanduíche de carne assada dar lugar a salgadinhos uniformes, produzidos em escala industrial fordista. Mas esses são meus olhos conservadores. E, afinal, quem sou eu para dizer à multidão de jovens boêmios que se amontoam em seus balcões modernizados que eles estão errados, são alienados e inconseqüentes em suas opções de lazer etílico? Seria muita presunção, não é mesmo? Mas, por outro lado, posso lamentar, aqui no meu cantinho, a perda de certos modos e costumes de viver a boemia.
Bianca, num pé-sujo de beira de estrada, rumo à Ilha Grande
Mas também festejar certas mudanças, como ventos de boa renovação. Uma delas é a presença cada vez mais constante e efervescente das mulheres nos botequins da cidade. Espaço tipicamente masculino, reduto em que lamuriávamos, entre um copo e outro, nossos amores fracassados, contando com a cumplicidade de nossos pares, capazes de entender a dor do desencontro com o sexo oposto, pois também tinham, em algum momento, passado pelo calvário amoroso: “Mulher é o cão!”, dizíamos amargurados.
Ana D., no Belmonte
Agora, nessas ondas de mudanças, eis que são elas que invadem nosso pedaço, trazendo um hibridismo interessante ao outrora reduto masculino. E com elas, o amor deixa as retóricas amarguradas das conversas de botequim, para se transformar em encontros potencialmente reais. Ei-las ao nosso lado, no balcão, brindando à vida! Pois então que se cheguem e sejam bem-vindas.
4 Comments:
Grande Paulinho de volta à ativa! :-)
tudo bem?
camarada, tenho que fazer umas fotos nuns botecos cariocas. Quer me ciceronear? :D
forte abraço!
Grande Serjão!
Com prazer! É só marcar!
Adorei o Blog...
Esse post me lembrou o Confesso que Bebi, do Jaguar.
Sentimentalismos cervejianos ;- )
Legal, Nat, venha sempre!
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