O Penafiel fechará as portas no dia 15, a seis anos de seu centenárioAmigos, está confirmado: o restaurante
Penafiel vai fechar as portas no dia 15 de dezembro. Fundado em 1913, o
Penafiel é uma das últimas casas de pasto portuguesas do velho Centro carioca, onde o freguês não escolhe a comida pelo cardápio. Ali, o ritual é abrir as panelas e espiar o menu do dia, dando uma boa aspirada nos aromas que impregnam o ambiente. E que ambiente. Ventiladores italianos dos anos 40, geladeira de madeira, piso de ladrilhos, pé-direito alto e garçons tão antigos no ramo, quanto a casa. Esta será preservada, pois o imóvel, que é mais antigo que o restaurante, é tombado pelo Patrimônio Histórico. Até mesmo uma escarradeira (lacrada, evidentemente), peça de museu, sobreviveu ao lado da pia.
Localizado na Senhor dos Passos, 121, o
Penafiel fica ao lado de um
McDonald’s, na entrada do Saara. Concorrência difícil de bater nestes dias de pulverização das tradições e desvalorização da memória. É verdade também que os preços andavam um tanto salgados para os bolsos de todo dia. Ir ao
Penafiel estava se tornando um de-vez-em-quando para mim. Mas sempre que chegava por lá, era a alegria e os pratos de uma fartura incomparável. Lembro do risoto de camarão com tempero caseiro, da carne assada com batatas coradas e outras iguarias, como o cherne à doré, servido com purê de batatas, camarão, bananas à milanesa e cebola dourada. A cerveja sempre gelada, daquelas que chegam à mesa mofadas por uma camada fina de gelo. De entrada, pasteizinhos especiais.

Casal se beija na Colombo, casa se adaptou aos costumes
É o segundo
Penafiel que o Rio perde. O primeiro foi o pé-sujo
Penafiel da Gamboa, na esquina da travessa Cunha Matos com rua do Livramento. Boteco famoso pelo chope cremoso (tinha uma chopeira raríssima, em forma de barril e uma serpentina com diâmetro menor) e pelo ambiente boêmio, não resistiu ao esvaziamento do bairro provocado pela onde de violência. As empresas foram deixando a região e a clientela caiu drasticamente. No caso do Penafiel do Saara, o golpe veio da concorrência dos restaurantes a quilo e dos fastfood. Também vi com tristeza o fim do
Garoto das Flores, da
Lisboeta e as desfigurações de
Monteiro,
Picote e
Belmonte, só para citar alguns. E outros estabelecimentos que perderam seus donos e, por isso, mudaram, como é o caso do
Salete e, agora, o
Bar do Jóia, cuja viúva, segundo soube (mas ainda não confirmei), está sendo pressionada a deixar o imóvel, onde o boteco existe há quase 100 anos.
Uma pena. Cada vez que uma casa dessas fecha, a sensação é que uma parte de nós morre com elas. Nossa memória sentimental da cidade vai perdendo grandeza, imensidade, amplidão. Vai se restringindo a uns poucos espaços sobreviventes. Outro dia, de férias pela cidade, perambulei pelo Centro. Bebi um chope no
Opus e almocei na
Colombo, só para me lembrar desse canto do Rio, cada vez mais esquecido e engolido pelas modas e construções apressadas. Velhos sobrados são postos abaixo e em seu lugar erguem-se novidades duvidosas.
Não sou saudosista nem fetichista do passado. Gosto de novidades. Mas minha alma dói ao ver essas tradições desaparecerem devagarinho, embaixo dos nossos narizes.
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