Amigos, esta matéria saiu no caderno
Morar Bem de o
Globo, no dia 31.
"
De costas para o bairroOs diferentes impactos dos prédios auto-suficientes sobre a vizinhança
Paulo Thiago de Mello
Boa parte dos edifícios que vêm sendo erguidos na cidade incorporou um padrão de qualidade que os tornou verdadeiros clubes sociais auto-suficientes. Além da área do imóvel e do número de cômodos e dependências, são oferecidas ainda garagem, áreas internas de lazer, piscina, sauna, salas de ginástica e até bares. Isso sem se falar no aspecto de segurança, segmento em que nos últimos anos ocorreu uma verdadeira revolução tecnológica, com a instalação de grades e portões inteligentes, circuitos internos de TV , guaritas e outros dispositivos. No entanto, especialistas alertam que esses condomínios desestimulam a vida nas calçadas, esvaziam ruas e praças, tornando a vizinhança mais insegura.
Num trecho tradicional de Botafogo, marcado por um casario do início do século XX, sobrados e prédios baixos são derrubados para ceder lugar a novos empreendimentos auto-suficientes, que incorporam um estilo de vida distinto daquele do bairro e esvaziam as ruasAlém dos imóveis propriamente ditos, esse tipo de empreendimento também vende um estilo de vida, no qual parte importante da sociabilidade acontece em áreas especificamente demarcadas para o lazer e o consumo, como shoppings, hipermercados, megastores, academias, boates etc. Essas edificações atualizam, assim, as formas de vida urbana, com novas etiquetas, posturas de convivência e usos dos espaços comuns.
Nas regiões de ocupação mais recente da cidade, como na
Barra da Tijuca, esse estilo de vida urbana se tornou marcante. Já nos bairros antigos das zonas Sul e Norte, observa-se um surdo confronto entre esse novo urbanismo e aquele outro que se traduz no uso de ruas e calçadas, numa forte integração da vizinhança, através do comércio de proximidade, praças e outras áreas comuns de convívio.
O choque entre esses modelos tem sido discutido por arquitetos, urbanistas, sociólogos, antropólogos e planejadores urbanos. Uma voz crítica dos modernos condomínios, hoje já clássica nesse debate, é a da pesquisadora americana
Jane Jacobs, falecida em abril passado. Nos anos 60,
Jane fez um contundente apanhado dos efeitos no cotidiano da cidade do modelo de condomínios que se proliferou
no mundo através da chamada arquitetura comercial. Ela partiu da seguinte indagação: por que determinadas áreas da cidade se tornam desertas e inseguras, ao passo que outras, sem grandes estruturas e parafernálias tecnológicas, apresentam uma vida social saudável, com baixos índices de criminalidade?

Além dos impactos na sociabilidade do bairro, os novos condomínios têm um padrão estético que contrasta enormemente com o modelo arquitetônico da vizinhança
A pesquisadora esmiuçou essa problemática no livro chamado
Morte e vida de grandes cidades (editora
Martins Fontes), no qual ela sugere que quanto maior for o uso comum dos espaços públicos e a mistura de segmentos sociais distintos, maior vitalidade terá o bairro.
Jane defende o comércio tradicional de rua — botequins, açougues, bancas de jornais, salões de beleza etc. — e o papel de determinadas figuras públicas, como porteiros e comerciantes, no controle informal da rua.
Quase 40 anos depois, os problemas urbanos em geral, e a violência da cidade em particular, ganharam enorme complexidade. Assim como o seu crescimento, nem sempre ordenado, também introduziu novos problemas. Mas as idéias de
Jane Jacobs permanecem pertinentes e atuais.
Um dos trechos mais antigos do bairro de
Botafogo, entre a
General Polidoro e
Álvaro Ramos, próximo à
Rua da Passagem, é um exemplo eloqüente do contraste de lógicas distintas de ocupação urbana. Na área, onde predominam construções de até quatro andares — sendo o primeiro andar de moradia no nível da rua —, o surgimento de novos edifícios no estilo moderno auto-suficiente, chama a atenção dos moradores pelo seu tamanho imponente e pelo desaparecimento de um certo patrimônio afetivo da vizinhança: os velhos prédios ou sobrados derrubados.
O contraste entre edificações: com vários pavimentos de garagem e playground, os novos edifícios deixam o morador distante da calçada
Além do impacto visual contrastante com a arquitetura que ainda predomina no bairro, a maior parte desses novos prédios, normalmente com sistema de grandes e guaritas, praticamente se desconecta da rua em que se situam, lançando sombra sobre a vizinhança. Os moradores entram e saem de carro e seus apartamentos se situam muitos pavimentos acima do nível da calçada, já que normalmente possuem quatro ou mais andares de garagem e playground. A própria estrutura da moradia acaba influindo no comportamento do morador que incorpora os valores de identidade vendidos com os imóveis."